domingo, 24 de maio de 2015

A casa de Mataduços


Era a casa do tio Junqueiro e da tia Helena e coube, por herança, à avó de Lisboa. Actualmente é propriedade da Teresinha, mas todos a sentimos como se também fosse nossa. Por isso é o local preferido para almoços de família e convívio com os amigos.
A Teresinha e o Militão vivem no Porto, mas costumam vir passar quase todos os fins-de-semana a Aveiro e, à noite, vão ficar na sua casa de Mataduços.
O aido está arrendado a uma pessoa que o cultiva e também cria patos e galinhas que se encontram numa cerca, mas continuamos a poder circular pela propriedade e, em particular, a usufruir das árvores de fruto. São famosas e muito cobiçadas as nozes da centenária nogueira existente no pátio, que tantas ralações causam à avó Lena, pois é preciso apanhá-las, parti-las, secá-las e pô-las a secar ao sol numa altura (Outono) em que chove frequentemente. Mas as maravilhosas ameixas brancas também são únicas devido ao seu sabor e tamanho. Todos os anos na época das ameixas é necessário recrutar voluntários entre a família e os amigos com capacidade para trepar a uma árvore de grande porte e apanhar os seus frutos. A ligação às nossas raízes talvez explique o facto de o nascimento de cada uma das bisnetas ter sido festejado com a plantação de uma árvore em sua homenagem, que é alvo de visitas regulares, sempre que nos deslocamos a Aveiro, para acompanhar de perto o seu crescimento.
Antigamente, todas as casas do lugar de Mataduços se enquadravam no modelo de arquitectura típica gandaresa. Até aos anos setenta, a aldeia viveu parada no tempo, sofrendo os efeitos dos sucessivos fluxos migratórios, primeiro para os Estados Unidos da América, mais tarde para a França e o Luxemburgo, que provocaram a desertificação do povoado e o começo do abandono de terrenos agrícolas. Mas na sequência das grandes alterações verificadas no nosso país após o 25 de Abril de 1974, muita gente de diversas origens escolheu Aveiro para trabalhar e Mataduços, por ser tão próxima da cidade, repentinamente ganhou nova vida e cresceu imenso. Para resolver o problema da habitação, construiu-se muito, por todo o lado e de qualquer maneira. Além disso, algumas pessoas resolveram remodelar as suas velhas casas ou mesmo demoli-las para erguer vivendas na rua principal de Mataduços. No caso da nossa família, houve sempre o cuidado de preservar o edifício, cuja fachada se mantém sem qualquer alteração, apesar das obras de conservação realizadas ao longo dos anos. As divisões, incluindo a cozinha velha com a sua lareira e forno de lenha, o mobiliário e a decoração permanecem tal como no tempo da avó. Mas por uma questão de comodidade de utilização, fizeram-se algumas remodelações. Aproveitando uma parte da enorme despensa, no lado oposto à porta da rua, “nasceu” uma cozinha nova e, no sótão, existe agora um amplo quarto abrangendo a área anteriormente destinada às instalações das empregadas.
Sempre que possível comemoramos os aniversários e outras efemeridades (as do calendário e outras inventadas por nós!) em Mataduços, no pátio, em frente da porta da cozinha nova, no espaço anteriormente ocupado pelos currais e que agora funciona como zona de estar e de refeições. Com bancos corridos construídos ao longo das paredes e vasos com plantas, este cantinho encontra-se bucolicamente abrigado pela latada que sustenta as videiras, como era uso no tempo dos nossos avós.
Os preparativos para os almoços começam uns dias antes com as limpezas, sob o olhar atento da nossa matriarca, a avó Lena, que preside a estes convívios. Na véspera é necessário fazer compras e confeccionar as entradas e os “doces” para levar para Mataduços. Os anfitriões capricham em receber muito bem a família e os amigos e, apesar de todos ajudarem, não têm mãos a medir para que nada falhe, pois convém deixar tudo pronto antes do começo da refeição. A parte da decoração do espaço de refeição e da mesa propriamente dita é responsabilidade da Belita que também costuma criar cartões alusivos ao evento, colocados ao lado do prato e oferecidos como recordação aos convivas. Há sempre boa comida em abundância, a ementa pode contemplar especialidades gastronómicas tanto nacionais como internacionais, mas o leitão assado merece especial destaque. Cortar o leitão exige muita sabedoria, apenas a Teresinha e a Belita se encontram habilitadas a exercer tal função e, para as incentivar, uma parte dos convivas costuma encaminhar-se discretamente para o local em que as duas especialistas se encontram a trabalhar (a mesa da sala) e fazem o sacrifício de provar o leitão, escolhendo naturalmente as partes do seu agrado, tudo isto acompanhado com uma bebida e comentários unânimes de que o leitão está péssimo! A certa altura quase todos os convivas se encontram à volta da mesa a comer leitão. E tudo isto antes de começar a refeição a sério. Não se faz cerimónia com ninguém e o ambiente descontraído e informal contribui para tornar cada um destes encontros mais animado e memorável que o anterior. Enquanto os adultos ainda comem e conversam, as crianças (as 4 bisnetas), engoliram a comida à pressa e aproveitam para brincar com brinquedos próprios para grandes espaços que não podem ter em casa e por isso estão guardados em Mataduços. De vez em quando espiam a bicharada, patos e galinhas, encerrados numa cerca e atiram-lhes pão só pelo gosto de os ver lutar por um bocadinho de comida. Mas voltam logo às suas brincadeiras e entretêm-se umas com as outras, raramente surgindo situações de conflito a pedir a intervenção de um adulto.
Depois destes repastos, uns preferem procurar uma cama para uma boa sesta, outros fazem um passeio digestivo até ao Senhorio. Perante nós, a perder de vista temos os esteiros e um emaranhado de terrenos inundados de água de diferentes tonalidades conforme o estado do tempo e a hora, ladeados de arbustos e junco. A ria de Aveiro aqui é assim.
Entretanto, antes de dar por terminada a festa, é preciso lavar a loiça e arrumar tudo. E normalmente combina-se logo a data para o próximo almoço! 




ÁLBUM DA CASA DE MATADUÇOS


Uma casa de arquitectura típica gandaresa


Fachada lateral junto ao pátio


Pormenor do nosso cantinho, ao lado da cozinha nova


O célebre leitão assado


Vista da ria a partir do Senhorio

terça-feira, 21 de abril de 2015

Vivenda Lúcia



O nome “Vivenda Lúcia” destacava-se na fachada do edifício escrito com letras manuscritas, moldadas em ferro, tão simples e de acordo com o estilo do conjunto arquitectónico da moradia. Construída ainda na década de 50 pelo tio Isaías (Isaías Gomes Gautier), irmão do avô de Lisboa e dedicada à mulher, a tia Lúcia, distinguia-se pelo seu ar moderno mas sóbrio, no meio das casas rústicas do lugar de Mataduços. Os proprietários moravam no Barreiro, mas era aí que passavam as férias com a família.
A vivenda englobava a garagem e a casa propriamente dita constituída por dois pisos, num edifício contíguo. As paredes exteriores eram revestidas por grandes lajes rugosas que pareciam feitas com uma massa de pedrinhas esmagadas de tom verde claro. Um muro relativamente baixo rematado por um gradeamento em ferro, num estilo muito leve e bonito, ao delimitar territórios, impunha uma certa distância essencial ao respeito pela privacidade dos outros. Entrava-se por uma elegante cancela de madeira situada lateralmente entre a garagem e a casa e contornava-se o edifício na direcção da cozinha, na parte de trás. Apenas em dias de festa se usava a porta principal, com telheiro, à direita depois de se passar a cancela.
Na porta da cozinha era colocado habitualmente um mosqueiro formado por uma estrutura de onde pendiam inúmeras fitas metálicas ligadas umas às outras que abanavam suavemente tilintando mais forte sempre que alguém entrava ou saía de casa. Além do tio Isaías, da tia Lúcia, dos seus três filhos (Licas, Amândio e Amelita), dos respectivos cônjuges e dos 5 netos, a casa enchia-se de convidados (alguns eram familiares, outros apenas amigos), sem contar com os vizinhos. Havia sempre gente na cozinha ocupada com a loiça ou a preparar as refeições. Então a tia Lúcia não parava, às voltas com o peixe. A prima Licas, que tinha carta de condução, ia regularmente com a tia Lúcia abastecer-se à Praça do Peixe, em Aveiro, onde compravam grandes quantidades de peixe fresquinho para alimentar os convivas.
 Também havia sempre fruta em abundância que era um regalo. As crianças da família retiravam da fruteira, por exemplo, um grande tomate e deliciavam-se a comê-lo à dentada o que me deixava impressionadíssima porque não gostava desse fruto. Os pêssegos,  enormes e saborosos, eram o orgulho do tio Isaías. Havia duas qualidades: os de polpa amarela, muito sumarentos,  que se desfaziam na boca e os de polpa esbranquiçada, rijinhos, bons para quem preferia roer. Íamos muitas vezes até ao aido escolher pêssegos das árvores para comer ali mesmo, sem os lavar. O tio Isaías mandara plantar imensos pessegueiros e laranjeiras, um verdadeiro pomar, cuja produção na sua maior parte se destinava à venda para rendimento e o restante para consumo da casa. Os métodos utilizados no tratamento das árvores, bastante inovadores para a época, provocavam um grande aumento da produção (e do tamanho dos frutos!), por isso era difícil não ficar rendido ao progresso assim alcançado na exploração frutífera. Lembro-me perfeitamente que em casa da prima Maria, situada a uma distância considerável, o mel habitualmente abundante chegou a faltar devido à morte das abelhas, mas ainda não havia consciência da gravidade da situação. Já depois do 25 de Abril o tio Isaías, revoltado, mandaria arrancar todas as árvores porque encontrou os seus pêssegos à venda no mercado por um preço muito superior àquele a que os vendera.
Recordo-me da agitação, do ambiente ruidoso e alegre, da claridade que chegava a todos os recantos da casa, tudo me parecia mais colorido e bonito. A sala de jantar, em frente à cozinha, tinha o chão de tijoleira, muito moderno e pouco vulgar na altura, e além dos móveis habituais, uma lareira. Neste piso situava-se também a sala de visitas, usada só em ocasiões especiais. No andar de cima ficavam os quartos. A decoração era simples, tudo muito prático e funcional.
Os três filhos do tio Isaías tinham personalidades bastantes diferentes. A prima Amelita, a mais nova, era muito reservada e passava o tempo no quarto a ler. Frequentava a universidade e acabou por se licenciar em biologia.   O primo Amândio, formado em medicina, passava pouco tempo em Mataduços, mas nós (eu e os meus irmãos) simpatizávamos imenso com ele, por ser muito divertido e ter uma maneira engraçada de falar que nos soava glu-glu e por isso dizíamos que parecia um peru. A prima Licas era a que convivia mais connosco, porque ela e avó Lena são muito amigas. Professora do ensino básico, gozava as férias grandes que antigamente duravam três meses, em Mataduços. Muito desinibida, não se atrapalhava com nada, mas o mais admirável e raro, na minha opinião, era o seu apuradíssimo sentido de humor que aliás se mantém até hoje. É impossível ficar indiferente às observações oportunas e desconcertantes que dirige aos outros e a si própria. Naquele tempo aparecia em nossa casa, em Aveiro, sempre muito animada e cheia de projectos e logo se combinava um programa especial para os dias seguintes que podia incluir uma estadia na Vivenda Lúcia, uma tarde na Feira do Março, passeios, piqueniques, idas à praia… Inicialmente conduzia um carro (um Morris?) muito velho, de cor clara, a que dera o nome de “calhordas”, mais tarde um Mercedes imponente do tio Isaías. Inesquecível quando o combustível acabava e a prima Licas se abastecia apenas da gasolina suficiente (25 tostões?) para chegar a casa e o pai ir encher o depósito.
Um dia, os proprietários da “Vivenda Lúcia” morreram e, após o processo de partilhas, a vivenda foi vendida em 1992. O novo proprietário fez obras na fachada que a descaracterizaram completamente. Mas para nós permanece igual ao que era anteriormente.

quarta-feira, 11 de fevereiro de 2015

O nosso patriarca


Fernando Maia dos Santos Neto nasceu em Mataduços no 30 de Julho de 1920 e faleceu em 17 de Maio de 2003, em Aveiro. Era casado com Maria Helena Moura Gautier Neto e tiveram cinco filhos, eu sou a mais velha.
Era uma pessoa muito reservada. Alguns episódios da sua infância e juventude chegaram ao meu conhecimento através da minha mãe, a avó Lena para as gerações mais jovens. Fez parte da chamada instrução primária em Mataduços e quis a fortuna que fosse sua professora a Sra. D. Madalena Furtado a qual, apercebendo-se das capacidades deste seu aluno, aconselhou os pais a porem-no a estudar para garantir um futuro melhor do que o deles. Entretanto a mudança de toda a família para Coimbra motivou a transferência para outra escola. Ora, o menino Fernando apercebia-se da falta de preparação da nova professora e não se calava, corrigia-a, pagando um alto preço por tamanha ousadia. No entanto, obteve a melhor classificação da sua turma no exame de admissão ao liceu.
A sua infância com certeza decorreu igual à de tantas outras crianças. Lembro-me perfeitamente de ouvir contar que possuía um talento especial para a construção e arte de manobrar papagaios de papel. Quando ia passar férias com a família à Costa Nova adorava fazê-los voar e normalmente vencia as competições com os outros rapazes.
Costumava dizer que queria ser padeiro e não manifestava qualquer ambição de estudar. No entanto, o meu avô resolveu seguir o conselho da professora Sra. D. Madalena e inscreveu-o no liceu, apesar dos fracos recursos económicos da família. No 1ºano (actual 5º ano), 1ºperíodo, teve notas positivas baixinhas excepto um 9 a Francês, a sua única negativa durante todo o percurso escolar. Certo dia um vizinho, pessoa de certo estatuto, perguntou-lhe pelas notas e comentou que do filho de um padeiro não se podia esperar melhor. Estas palavras humilharam-no de tal forma que decidiu, naquele momento, empenhar-se nos estudos, tornando-se um aluno excepcional, pelo que beneficiou sempre de isenção de propinas. Formou-se em medicina com a classificação de 17 valores o que poderia abrir-lhe portas dentro da faculdade. Mas, naquele tempo, não era de estranhar que a única vaga existente fosse preenchida preferencialmente por um candidato filho de um catedrático, apesar da média mais alta ter sido obtida por um outro licenciado. A hipótese de uma carreira universitária estava, pois, afastada, mas assim ficava com liberdade para sair de Coimbra (não gostava da cidade) e ser um verdadeiro médico, o que lhe agradava bastante.
 Aos 16 anos, a morte da irmã com 14 anos foi um acontecimento muito traumático com repercussões na vida familiar, pois a minha avó impôs um luto rigoroso, um ambiente de tristeza permanente e, por exemplo, idas ao cemitério duas vezes por semana nas quais se fazia acompanhar pelo filho. Impedido de viver normalmente a sua juventude, integrou a tuna, onde tocava violino e o orfeão académico como forma de se libertar, de sair de casa. Nessa qualidade ainda viajou pelo país, mas devido à 2ª Grande Guerra as idas ao estrangeiro foram canceladas.
Apesar das casas dos avós de Coimbra e de Lisboa em Mataduços serem contíguas, o meu pai e a minha mãe não se conheciam, porque o avô Salvador e a avó Isabel iam poucas vezes à terra e o meu pai, se acaso passava alguns dias por lá, ficava em casa dos tios. Segundo a avó Lena, o meu pai recordava-se do nascimento dela (9 anos mais nova). Estava a brincar na eira com o tio Isaías quando o avô de Lisboa chegou com a novidade: uma cegonha tinha acabado de chegar de Paris com uma menina! Muitos anos mais tarde viriam a encontrar-se quando o meu pai, já formado, foi convidado para tratar da tia Ilda, irmã da avó Lena, que precisava de um médico que a acompanhasse nos períodos em que passava férias em Aveiro.  
O resultado desse encontro está à vista: casaram-se e multiplicaram-se, à razão de um filho por ano.
De acordo com a mentalidade daquela época, geralmente a relação pai/filhos era algo distante. No entanto recordo alguns momentos de rara cumplicidade com os filhos. A mim, marcaram-me especialmente aquelas tardes (devia ser fim-de-semana) em que íamos para os pinhais apanhar grilos. A sua técnica não falhava. Primeiro tínhamos de, muito silenciosamente, conseguir identificar de onde vinha o cri-cri. Descoberta a toca enfiava-se pelo buraco uma palha fininha. Quando o grilo aparecia incomodado pela intromissão era preciso apanhá-lo sem o mutilar. Também adorávamos quando o meu pai, de repente, resolvia ir buscar um passarinho metálico que guardava numa gaveta, dava-lhe corda e ele punha-se aos saltos pelo chão. Ficávamos fascinados e realmente divertíamo-nos todos muitíssimo. Lembro-me ainda do meu encantamento quando nos levava ao circo. Numa cidade de província era um acontecimento especial e sentíamo-nos orgulhosos da sua companhia.
O meu pai trabalhava muito, não só no hospital e na casa de saúde de Aveiro, mas também nos arredores e em locais relativamente distantes, por vezes com maus acessos como Sever do Vouga. Chegava a levantar-se várias vezes por noite. Só depois do 25 de Abril a situação profissional estabilizou passando a integrar o quadro de efectivos do hospital de Aveiro. Lembro-me perfeitamente de que, quando apareciam no hospital crianças em estado desesperado devido a acidente, o meu pai chegava a casa muito impressionado a dizer que não aguentava assistir a tamanho sofrimento.
Era uma pessoa que não se calava perante as injustiças que encontrava à sua volta, nomeadamente no local de trabalho. Este feitio, numa época em que reinava o servilismo, tinha os seus custos. Antes do 25 de Abril, era suficiente para não merecer a confiança do regime. Por isso, apesar de se recensear dentro do prazo legal, o seu nome nunca constava dos cadernos eleitorais, impedindo-o assim de votar.
O meu pai impunha-se pela força do seu carácter, tendo transmitido aos filhos e aos netos uma filosofia de vida, cujos princípios naturalmente seguimos. Ensinou-nos, por exemplo, que devemos valorizar apenas o que é essencial no indivíduo, sem nos deixarmos impressionar pelo estatuto social ou bens materiais que eventualmente possua. Era um exemplo de grande honestidade e costumava dizer algo que cito muitas vezes porque, para mim, é uma máxima: ”Ninguém enriquece com o trabalho”.
Verdadeiro autodidacta, enquanto a saúde lho permitiu, embrenhava-se a ler livros e revistas ou a ver documentários sobre os mais variados temas, para se manter actualizado. Esta sua faceta é lembrada, nomeadamente pelos netos, com muita admiração e como um exemplo a seguir. Todos gostavam de ouvir as suas opiniões e conselhos. Era um grande patriarca.




ÁLBUM DO NOSSO PATRIARCA



Em bebé, 1921?


Estudante de medicina; sem data



Do livro de curso; 1943



Já casado; sem data



Com 70 anos, 1990



Bodas de ouro, Janeiro de 2000

quarta-feira, 26 de novembro de 2014

O Tio Isaías

O tio Isaías, irmão mais velho da avó Lena, era o nosso único tio. Nasceu em Mataduços em 30/09/1921 e faleceu em Lisboa em 01/08/1983. Adorado por todos os sobrinhos, depois do seu divórcio começou a passar o Natal, em Aveiro, connosco. Muito extrovertido e alegre, animava as nossas férias com as suas “ideias loucas” pelo que, sem qualquer exagero, podemos afirmar que, durante aqueles dias, vivíamos em permanente festa. Organizava, por exemplo, o concurso do Mister ou da Miss pasteleira do respectivo ano. Com a devida antecedência aprimorávamo-nos na confecção das mais deliciosas sobremesas que teriam de ser submetidas ao julgamento de um exigente júri. O vencedor(a) seria laureado com uma faixa (de papel higiénico) com inscrição alusiva à proeza. Oferecia-nos prendas originais trazidas da capital ou das suas viagens ao estrangeiro, acompanhadas de um cartão de Boas Festas muito ternurento sempre com uma piada oportuna que provocava a gargalhada geral de toda a família.
O tio Isaías gostava muito de desportos náuticos. Na sua juventude foi praticante de natação e de remo de competição. Mais tarde interessou-se também pela pesca desportiva. Além disso, costumava praticar esqui aquático, durante os fins-de-semana, grande parte do ano. Para o efeito, possuía um pequeno barco a motor de que muito se orgulhava e era o seu luxo devido ao elevado custo em manutenção e combustível. Também sabia esquiar na neve, o que era bastante invulgar naquela época, actividade que abandonou depois de um acidente em que fracturou de um pé, em Espanha.
O tio Isaías construiu uma casa rústica num local isolado, conhecido por Massapés, perto de Sesimbra. De facto, apenas mandou erguer as paredes e o telhado, ficando os acabamentos à sua conta. Muitos fins-de-semana foram passados a pintar, envernizar e outros trabalhos tanto no interior como no exterior da habitação. Familiares e amigos contribuíram para esta empreitada com a sua mão-de-obra. Por fim a casa ficou pronta e muito bonita, decorada de maneira extremamente sóbria e funcional.
O tio Isaías era licenciado em economia e desempenhava um cargo de grande responsabilidade nos serviços de manutenção da TAP. Na qualidade de funcionário da empresa, gozava de algumas facilidades para viajar de avião o que lhe permitiu conhecer bastantes países no continente europeu, mas também no americano e até na Ásia. Nestas viagens, algumas vezes fez-se acompanhar pelo seu “amado filho” como costumava dizer muito orgulhoso, e partir de certa altura era com a Nane, sua companheira de mais de uma dezena de anos, que fazia férias no estrangeiro. 
Devida à sua forte personalidade, envolveu-se em projectos que muito contribuíram para engrandecer a empresa onde trabalhava. Era o sócio nº 1 da Cooperativa da TAP que ajudara a criar. Além disso, no meio automobilístico é reconhecido o seu papel na organização do 1º Rallye Internacional TAP.
Afectuoso e cheio de energia, gostava muito de viver cá na terra. Por isso a vida foi extremamente ingrata para com ele pregando-lhe uma enorme partida: de forma inesperada ficou diminuído nas suas capacidades e completamente dependente. Veio a falecer vários meses depois em casa da mãe, a nossa avó Ermelinda.




ÁLBUM DO TIO ISAÍAS


Verão de 1937


Verão de 1938; é o 2º à direita


Nas Pastoras, 1939


Nas Pastoras, 01/01, 1945


Na apresentação do 1º Rallye Internacional TAP, 1967


Na casa de Massapés, 1975


Natal em Aveiro, 1975


Com o sobrinho-neto, 1977


Correspondência para os sobrinhos

quinta-feira, 6 de novembro de 2014

Os Avós de Coimbra

Era assim que chamávamos aos nossos avós paternos. Nasceram ambos em Mataduços, o meu avô Salvador dos Santos Neto Júnior em 11.03.1896 e a minha avó Isabel de Oliveira Maia em 21.09.1894, mas viviam em Coimbra. Vou recordá-los como casal, seria muito difícil falar deles separadamente, o meu avó sempre preocupado com a saúde e o bem-estar da sua Isabel e a minha avó, embora fosse muito introvertida, facilmente se percebia que não conseguiria viver sem a companhia atenta e amiga do marido. Tanto assim que o meu avô faleceu em 22.08.74 e a minha avó pouco tempo sobreviveu falecendo em 9.01.75. A morte de uma filha com 14 anos, em 1936, lançou-a numa profunda depressão. Toda a sua vida ficou marcada por esse acontecimento traumático, impôs a si própria e em casa um luto muito rigoroso que se prolongou por vários anos e só a partir do casamento do filho e do nascimento dos netos começou a mostrar mais interesse pela vida.
Entre os 4 e os 6 anos vivi com os meus avós que moravam na Rua de S. Salvador, na chamada Alta de Coimbra, uma zona antiga de ruas estreitas, empedradas, numa casa que do lado das traseiras tinha em frente a torre da universidade.  Frequentava o Jardim–Escola João de Deus, mas ficava com bastante tempo livre para fazer companhia à minha avó em casa e quando saía. Acrescente-se que a minha avó me tratava como uma princesinha. Tricotava para nós vestidos e camisolas dignos de capa de revista, e pelo menos a mim, que era a sua preferida, por ser a mais velha e por me achar parecida com a Tia Augustinha, a filha que perdera, dava-me muitas vezes cinco tostões para comprar rebuçados e, é claro, muitos mimos. Feliz e muito inocente, incentivada pela minha avó, cantava e dançava com a maior naturalidade na presença de vizinhas e amigas, lembro-me em especial a Sra. Enfermeira que morava em frente e era visita assídua lá de casa.  
Recordo com saudade o cheirinho a açúcar queimado quando fazia o pudim chinês, cuja confecção não confiava à criada possivelmente porque, no seu entender, exigia grandes apuros (ou teria também algum segredo?) que não estavam ao alcance de qualquer pessoa. O mesmo acontecia sempre que um cozinhado saía um pouco da rotina. Aos domingos normalmente comia-se borrego assado no forno da padaria do avô que ficava perto. Lembro-me do avó a atender os clientes ao balcão da padaria e de me levar a visitar as instalações que eram domínio da gata que ele muito estimava. E mais uma vez sinto um aroma muito agradável, a farinha e a pão fresco. Mas o perfume mais maravilhoso de que me recordo era o do pão torrado, feito na grelha do radiador que se voltava para cima a servir de torradeira.
A minha avó gostava de andar bem arranjada e tinha bom gosto. Era uma mulher elegante e alta, para a sua geração. Muito exigente também. Talvez por isso quando pretendia comprar, por exemplo, uns sapatos não se coibia de experimentar tantos pares quantos os necessários até encontrar o que pretendia. E, como era comum naquela época, discutia acerrimamente o preço.
Lembro-me que ao jantar normalmente comíamos “aferventado” que era peixe cozido, eventualmente bacalhau, com batatas e legumes. Muitas vezes sobrava um bocadinho de comida na travessa e então travava-se um diálogo mais ou menos assim. Avô: “Ninguém quer comer mais, não é verdade? Posso levar para a gatinha?” Avó: “Quero eu.” Costumo contar este episódio que revela bem o carácter dos dois. O avô era um “mãos largas” e “coração grande” até para os animais. Sempre bem-disposto, optimista e pronto para ajudar os outros, era incapaz de dizer não e, por isso, por exemplo, frequentemente lhe pediam dinheiro emprestado. A avó mais realista, “com os pés bem assentes na terra” e muito poupada. Portanto não é de admirar que, embora de forma a não contrariar abertamente o meu avô, reclamasse para si as sobras do jantar. De facto, geralmente só se davam aos animais os restos dos restos, aquilo era esbanjar comida, um verdadeiro desperdício para a mentalidade das pessoas daquele tempo.
Talvez por serem tão diferentes os meus avós completavam-se na perfeição!






ÁLBUM DOS AVÓS DE COIMBRA


Avô Salvador aos 18 anos


Avô Salvador com a avó em pensamento, 18/06/1919


Em 1928


Sem data


Avó Isabel em 1962


Nas bodas de oiro, 5 de Outubro de 1969


Nas bodas de oiro com os netos, 5 de Outubro de 1969


Algures num casamento, sem data

sábado, 27 de setembro de 2014

Ti Junqueiro

O Ti Junqueiro (Manuel Rodrigues Junqueiro) nasceu em Mataduços e morreu em Lisboa com 93 anos, no dia 4 de Dezembro de 1957. Casado com Helena Simões de Moura, irmã da mãe da avó Ermelinda, ficou viúvo muito cedo. A avó Ermelinda foi criada por estes tios, relativamente abastados, que não tinham filhos, para “aliviar” os pais e por ser muito fraquinha.
Parece que estou a vê-lo sentado numa cadeira à janela, com vista para a Rua Morais Soares, na salinha onde a avó passava bastante tempo à volta das suas costuras e outros afazeres. O Ti Junqueiro com o seu imponente bigode branco e uma manta pelos joelhos, para mim, permanece no seu cantinho, mas não consigo lembrar-me nem da sua voz nem de o ouvir falar (eu teria entre 4, 6 anos). A minha avó tratava-o com uma dedicação sem limites e, apesar de ser muito pequena, apercebia-me que todos o respeitavam por ocupar o lugar mais importante na hierarquia familiar devido à sua idade.
O Ti Junqueiro em novo veio trabalhar como padeiro para Lisboa. Ter-se-á adaptado bem à sociedade lisboeta pois aprendeu o jogo do pau (existe uma foto que ilustra esta sua faceta), muito popular naquele tempo, e, segundo consta, era namoradeiro e gostava de tentar a sua sorte fazendo a corte às criadas às escondidas dos patrões.
Quando se casou com a Ti Helena, voltou para Mataduços, continuando a trabalhar como padeiro. Entretanto foi adquirindo praias de juncos, que naquela época valiam muito, e tinha uma bateira que servia essencialmente para o seu transporte na ria. O junco era um material de grande utilidade. Com ele se cobria o chão dos currais e dos pátios. Em determinada altura do ano, recolhia-se e empilhava-se em grandes medas para fermentar. Passado algum tempo, o estrume estava em condições de adubar a terra para as sementeiras. Segundo conta a avó Lena, a principal fonte para a reconstituição da figura do Ti Junqueiro, ao domingo, depois da missa, os homens aproveitavam para tratar de negócios e o Ti Junqueiro era abordado por aqueles que queriam comprar junco.
Muito famosa no círculo da nossa família restrita e mil vezes repetida é a história do pão de trigo. Naquele tempo, o pão de trigo era muito raro e, pelo menos em Mataduços, destinava-se, em especial, às pessoas que se encontravam muito doentes. Certo dia, o pai do Ti Junqueiro incumbiu-o de ir à Póvoa do Paço comprar um pão de trigo para dar a um irmão que estava muito mal. Não resistindo à tentação, o Ti Junqueiro fez um buraquinho e tirou o miolo ao pão. Pagou caro este atrevimento, pois o pai atirou-lhe uma acha à perna, deixando-lhe uma marca para toda a vida.
Outro episódio revelador da mentalidade das pessoas da aldeia ter-se-á passado com o seu irmão, António, quando estava na tropa (o Ti Junqueiro preferiu pagar uma taxa para ficar dispensado do serviço militar). O oficial pediu-lhe para despejar o “vaso de noite”, que antigamente era de loiça, dizendo com ironia: “Agora, parte-o!” Tomando à letra estas palavras foi o que ele fez. Sempre que os dois irmãos, Manuel e António, se juntavam, todos se divertiam com as suas aventuras, lembra a avó Lena, este é apenas um exemplo dessas conversas em família.
Quando o Ti Junqueiro ficou viúvo teve de arranjar uma “moça” para se ocupar da casa e dos animais. De acordo com as normas daquele tempo, para evitar mal entendidos, uma das sobrinhas ia dormir lá a casa todas as noites. Nos últimos anos de vida, devido à sua idade avançada, morou em  Lisboa com a sobrinha que criara, a nossa avó Ermelinda.

Nota: A avó Lena diz que a leitura deste texto lhe despoletou memórias muito antigas e levou-a a recordar-se, apesar de terem decorrido cerca de 80 anos, da imagem do Ti Junqueiro, sentado na soleira da porta da cozinha, na casa de Mataduços, a tratar das suas mazelas com sanguessugas nas pernas.  



ÁLBUM DO TI JUNQUEIRO
O Ti Junqueiro é o mais baixo; sem data


Em 1947


Sem data



sexta-feira, 11 de julho de 2014

O avô de Lisboa

A minha mãe (a avó Lena para as gerações mais novas) guarda numa pasta vários esboços da nossa árvore genealógica e outras informações de interesse relacionadas com a família e o lugar de Mataduços, quase todas obtidas pela prima Gracinha e pelo meu irmão Fernando que investiu muito do seu tempo livre a pesquisar sobre as nossas raízes. No meio dos papéis encontrava-se uma folha onde a avó Lena registou algumas histórias envolvendo o avô de Lisboa (António Gomes Gautier nascido em 1895 e falecido em 1962).

Segue-se a transcrição dos apontamentos da avó Lena:
«O meu pai foi trabalhar para Lisboa com 13 anos. Costumava recordar que à despedida, na estação do Caminho de Ferro de Aveiro, chorava tanto que beijou a mão a todas as pessoas presentes no local, incluindo o chefe da estação.
O meu pai tinha uma ligação muito forte ao seu avô Lourenço e, por isso, sentia imensas saudades dele. Antes de ir viver para Lisboa, como era o mais velho já trabalhava muito a ajudar os pais, no campo e o avô tinha muita pena dele. Além disso partilhava a comida com o neto e, ao domingo, dava-lhe uma malguinha de vinho. O meu pai garantia que na noite do falecimento deste avô, sonhara com a sua morte.
Naquele tempo, de Mataduços e das aldeias em redor saíram muitos rapazes para trabalhar nas padarias e, normalmente, eram acolhidos por conterrâneos já estabelecidos na capital. O meu pai foi trabalhar para os Cabeças da Póvoa do Paço. Os empregados viviam nas padarias em pequenos quartos e utilizavam o forno para fazer a comida.
O meu pai contava que, quando mandaram o meu tio José (irmão mais novo dele) trabalhar para Lisboa, foi esperá-lo à estação. Nessa altura já se vestia à moda de Lisboa, enquanto o irmão ia com as roupas que se usavam na aldeia, muito preocupado porque tinha consigo algum dinheiro, que era costume darem-lhes para levar, mas fora avisado para ter cuidado com os vigaristas.
Então o meu pai disse-lhe:
- Todos os homens que usam chapéu de palha (era moda nesse tempo) são “vigairistas”.
O tio José apertou os braços ao corpo com medo que o roubassem e seguiu atrás do meu pai, a olhar para todos os lados, muito desconfiado.»
É pena o relato acabar aqui.

Queria apenas acrescentar que um outro irmão, Isaías, viria para Lisboa, acabando por se estabelecer no Barreiro. Os três irmãos, sempre inseparáveis, tornaram-se  industriais de panificação. O meu avó foi homenageado, já perto do fim da vida, recebendo uma medalha de reconhecimento pelo sucesso alcançado no seu ramo de actividade.


ÁLBUM DO AVÔ DE LISBOA


 Foto não datada


                                                         Foto datada de 1935


                                     Paisagem do Vouga, Verão de 1947


Na padaria, não datada.
Ao lado do avô está uma criança:
o seu filho Isaías


Avô de Lisboa com três netos em 1955