Era a casa do tio Junqueiro e da tia Helena e coube, por herança, à
avó de Lisboa. Actualmente é propriedade da Teresinha, mas todos a sentimos
como se também fosse nossa. Por isso é o local preferido para almoços de
família e convívio com os amigos.
A Teresinha e o Militão vivem no Porto, mas costumam vir passar quase
todos os fins-de-semana a Aveiro e, à noite, vão ficar na sua casa de
Mataduços.
O aido está arrendado a uma pessoa que o cultiva e também cria patos e
galinhas que se encontram numa cerca, mas continuamos a poder circular pela
propriedade e, em particular, a usufruir das árvores de fruto. São famosas e
muito cobiçadas as nozes da centenária nogueira existente no pátio, que tantas
ralações causam à avó Lena, pois é preciso apanhá-las, parti-las, secá-las e
pô-las a secar ao sol numa altura (Outono) em que chove frequentemente. Mas as maravilhosas
ameixas brancas também são únicas devido ao seu sabor e tamanho. Todos os anos
na época das ameixas é necessário recrutar voluntários entre a família e os
amigos com capacidade para trepar a uma árvore de grande porte e apanhar os
seus frutos. A ligação às nossas raízes talvez explique o facto de o nascimento
de cada uma das bisnetas ter sido festejado com a plantação de uma árvore em
sua homenagem, que é alvo de visitas regulares, sempre que nos deslocamos a
Aveiro, para acompanhar de perto o seu crescimento.
Antigamente, todas as casas do lugar de Mataduços se enquadravam no
modelo de arquitectura típica gandaresa. Até aos anos setenta, a aldeia viveu
parada no tempo, sofrendo os efeitos dos sucessivos fluxos migratórios,
primeiro para os Estados Unidos da América, mais tarde para a França e o
Luxemburgo, que provocaram a desertificação do povoado e o começo do abandono de
terrenos agrícolas. Mas na sequência das grandes alterações verificadas no
nosso país após o 25 de Abril de 1974, muita gente de diversas origens escolheu
Aveiro para trabalhar e Mataduços, por ser tão próxima da cidade,
repentinamente ganhou nova vida e cresceu imenso. Para resolver o problema da
habitação, construiu-se muito, por todo o lado e de qualquer maneira. Além
disso, algumas pessoas resolveram remodelar as suas velhas casas ou mesmo
demoli-las para erguer vivendas na rua principal de Mataduços. No caso da nossa
família, houve sempre o cuidado de preservar o edifício, cuja fachada se mantém
sem qualquer alteração, apesar das obras de conservação realizadas ao longo dos
anos. As divisões, incluindo a cozinha velha com a sua lareira e forno de lenha,
o mobiliário e a decoração permanecem tal como no tempo da avó. Mas por uma
questão de comodidade de utilização, fizeram-se algumas remodelações. Aproveitando
uma parte da enorme despensa, no lado oposto à porta da rua, “nasceu” uma
cozinha nova e, no sótão, existe agora um amplo quarto abrangendo a área anteriormente
destinada às instalações das empregadas.
Sempre que possível comemoramos os aniversários e outras efemeridades
(as do calendário e outras inventadas por nós!) em Mataduços, no pátio, em frente
da porta da cozinha nova, no espaço anteriormente ocupado pelos currais e que
agora funciona como zona de estar e de refeições. Com bancos corridos
construídos ao longo das paredes e vasos com plantas, este cantinho encontra-se bucolicamente
abrigado pela latada que sustenta as videiras, como era uso no tempo dos nossos
avós.
Os preparativos para os almoços começam uns dias antes com as
limpezas, sob o olhar atento da nossa matriarca, a avó Lena, que preside a
estes convívios. Na véspera é necessário fazer compras e confeccionar as
entradas e os “doces” para levar para Mataduços. Os anfitriões capricham em
receber muito bem a família e os amigos e, apesar de todos ajudarem, não têm mãos
a medir para que nada falhe, pois convém deixar tudo pronto antes
do começo da refeição. A parte da decoração do espaço de refeição e da mesa
propriamente dita é responsabilidade da Belita que também costuma criar cartões
alusivos ao evento, colocados ao lado do prato e oferecidos como recordação aos
convivas. Há sempre boa comida em abundância, a ementa pode contemplar especialidades
gastronómicas tanto nacionais como internacionais, mas o leitão assado merece
especial destaque. Cortar o leitão exige muita sabedoria, apenas a Teresinha e
a Belita se encontram habilitadas a exercer tal função e, para as incentivar,
uma parte dos convivas costuma encaminhar-se discretamente para o local em que
as duas especialistas se encontram a trabalhar (a mesa da sala) e fazem o
sacrifício de provar o leitão, escolhendo naturalmente as partes do seu agrado,
tudo isto acompanhado com uma bebida e comentários unânimes de que o leitão
está péssimo! A certa altura quase todos os convivas se encontram à volta da
mesa a comer leitão. E tudo isto antes de começar a refeição a sério. Não se faz
cerimónia com ninguém e o ambiente descontraído e informal contribui para tornar
cada um destes encontros mais animado e memorável que o anterior. Enquanto os
adultos ainda comem e conversam, as crianças (as 4 bisnetas), engoliram a
comida à pressa e aproveitam para brincar com brinquedos próprios para grandes
espaços que não podem ter em casa e por isso estão guardados em Mataduços. De
vez em quando espiam a bicharada, patos e galinhas, encerrados numa cerca e atiram-lhes
pão só pelo gosto de os ver lutar por um bocadinho de comida. Mas voltam logo às
suas brincadeiras e entretêm-se umas com as outras, raramente surgindo
situações de conflito a pedir a intervenção de um adulto.
Depois destes repastos, uns preferem procurar uma cama para uma boa
sesta, outros fazem um passeio digestivo até ao Senhorio. Perante nós, a perder
de vista temos os esteiros e um emaranhado de terrenos inundados de água de
diferentes tonalidades conforme o estado do tempo e a hora, ladeados de
arbustos e junco. A ria de Aveiro aqui é assim.
Entretanto, antes de dar por terminada a festa, é preciso lavar a
loiça e arrumar tudo. E normalmente combina-se logo a data para o próximo
almoço!
ÁLBUM DA CASA DE MATADUÇOS
Faltou escrever sobre a fossa!
ResponderEliminar