domingo, 24 de maio de 2015

A casa de Mataduços


Era a casa do tio Junqueiro e da tia Helena e coube, por herança, à avó de Lisboa. Actualmente é propriedade da Teresinha, mas todos a sentimos como se também fosse nossa. Por isso é o local preferido para almoços de família e convívio com os amigos.
A Teresinha e o Militão vivem no Porto, mas costumam vir passar quase todos os fins-de-semana a Aveiro e, à noite, vão ficar na sua casa de Mataduços.
O aido está arrendado a uma pessoa que o cultiva e também cria patos e galinhas que se encontram numa cerca, mas continuamos a poder circular pela propriedade e, em particular, a usufruir das árvores de fruto. São famosas e muito cobiçadas as nozes da centenária nogueira existente no pátio, que tantas ralações causam à avó Lena, pois é preciso apanhá-las, parti-las, secá-las e pô-las a secar ao sol numa altura (Outono) em que chove frequentemente. Mas as maravilhosas ameixas brancas também são únicas devido ao seu sabor e tamanho. Todos os anos na época das ameixas é necessário recrutar voluntários entre a família e os amigos com capacidade para trepar a uma árvore de grande porte e apanhar os seus frutos. A ligação às nossas raízes talvez explique o facto de o nascimento de cada uma das bisnetas ter sido festejado com a plantação de uma árvore em sua homenagem, que é alvo de visitas regulares, sempre que nos deslocamos a Aveiro, para acompanhar de perto o seu crescimento.
Antigamente, todas as casas do lugar de Mataduços se enquadravam no modelo de arquitectura típica gandaresa. Até aos anos setenta, a aldeia viveu parada no tempo, sofrendo os efeitos dos sucessivos fluxos migratórios, primeiro para os Estados Unidos da América, mais tarde para a França e o Luxemburgo, que provocaram a desertificação do povoado e o começo do abandono de terrenos agrícolas. Mas na sequência das grandes alterações verificadas no nosso país após o 25 de Abril de 1974, muita gente de diversas origens escolheu Aveiro para trabalhar e Mataduços, por ser tão próxima da cidade, repentinamente ganhou nova vida e cresceu imenso. Para resolver o problema da habitação, construiu-se muito, por todo o lado e de qualquer maneira. Além disso, algumas pessoas resolveram remodelar as suas velhas casas ou mesmo demoli-las para erguer vivendas na rua principal de Mataduços. No caso da nossa família, houve sempre o cuidado de preservar o edifício, cuja fachada se mantém sem qualquer alteração, apesar das obras de conservação realizadas ao longo dos anos. As divisões, incluindo a cozinha velha com a sua lareira e forno de lenha, o mobiliário e a decoração permanecem tal como no tempo da avó. Mas por uma questão de comodidade de utilização, fizeram-se algumas remodelações. Aproveitando uma parte da enorme despensa, no lado oposto à porta da rua, “nasceu” uma cozinha nova e, no sótão, existe agora um amplo quarto abrangendo a área anteriormente destinada às instalações das empregadas.
Sempre que possível comemoramos os aniversários e outras efemeridades (as do calendário e outras inventadas por nós!) em Mataduços, no pátio, em frente da porta da cozinha nova, no espaço anteriormente ocupado pelos currais e que agora funciona como zona de estar e de refeições. Com bancos corridos construídos ao longo das paredes e vasos com plantas, este cantinho encontra-se bucolicamente abrigado pela latada que sustenta as videiras, como era uso no tempo dos nossos avós.
Os preparativos para os almoços começam uns dias antes com as limpezas, sob o olhar atento da nossa matriarca, a avó Lena, que preside a estes convívios. Na véspera é necessário fazer compras e confeccionar as entradas e os “doces” para levar para Mataduços. Os anfitriões capricham em receber muito bem a família e os amigos e, apesar de todos ajudarem, não têm mãos a medir para que nada falhe, pois convém deixar tudo pronto antes do começo da refeição. A parte da decoração do espaço de refeição e da mesa propriamente dita é responsabilidade da Belita que também costuma criar cartões alusivos ao evento, colocados ao lado do prato e oferecidos como recordação aos convivas. Há sempre boa comida em abundância, a ementa pode contemplar especialidades gastronómicas tanto nacionais como internacionais, mas o leitão assado merece especial destaque. Cortar o leitão exige muita sabedoria, apenas a Teresinha e a Belita se encontram habilitadas a exercer tal função e, para as incentivar, uma parte dos convivas costuma encaminhar-se discretamente para o local em que as duas especialistas se encontram a trabalhar (a mesa da sala) e fazem o sacrifício de provar o leitão, escolhendo naturalmente as partes do seu agrado, tudo isto acompanhado com uma bebida e comentários unânimes de que o leitão está péssimo! A certa altura quase todos os convivas se encontram à volta da mesa a comer leitão. E tudo isto antes de começar a refeição a sério. Não se faz cerimónia com ninguém e o ambiente descontraído e informal contribui para tornar cada um destes encontros mais animado e memorável que o anterior. Enquanto os adultos ainda comem e conversam, as crianças (as 4 bisnetas), engoliram a comida à pressa e aproveitam para brincar com brinquedos próprios para grandes espaços que não podem ter em casa e por isso estão guardados em Mataduços. De vez em quando espiam a bicharada, patos e galinhas, encerrados numa cerca e atiram-lhes pão só pelo gosto de os ver lutar por um bocadinho de comida. Mas voltam logo às suas brincadeiras e entretêm-se umas com as outras, raramente surgindo situações de conflito a pedir a intervenção de um adulto.
Depois destes repastos, uns preferem procurar uma cama para uma boa sesta, outros fazem um passeio digestivo até ao Senhorio. Perante nós, a perder de vista temos os esteiros e um emaranhado de terrenos inundados de água de diferentes tonalidades conforme o estado do tempo e a hora, ladeados de arbustos e junco. A ria de Aveiro aqui é assim.
Entretanto, antes de dar por terminada a festa, é preciso lavar a loiça e arrumar tudo. E normalmente combina-se logo a data para o próximo almoço! 




ÁLBUM DA CASA DE MATADUÇOS


Uma casa de arquitectura típica gandaresa


Fachada lateral junto ao pátio


Pormenor do nosso cantinho, ao lado da cozinha nova


O célebre leitão assado


Vista da ria a partir do Senhorio

1 comentário: