O nome “Vivenda Lúcia” destacava-se na fachada do edifício escrito com letras manuscritas, moldadas em ferro, tão simples e de acordo com o estilo do conjunto arquitectónico da moradia. Construída ainda na década de 50 pelo tio Isaías (Isaías Gomes Gautier), irmão do avô de Lisboa e dedicada à mulher, a tia Lúcia, distinguia-se pelo seu ar moderno mas sóbrio, no meio das casas rústicas do lugar de Mataduços. Os proprietários moravam no Barreiro, mas era aí que passavam as férias com a família.
A vivenda englobava a garagem e a casa propriamente dita constituída por
dois pisos, num edifício contíguo. As paredes exteriores eram revestidas por
grandes lajes rugosas que pareciam feitas com uma massa de pedrinhas esmagadas
de tom verde claro. Um muro relativamente baixo rematado por um gradeamento em
ferro, num estilo muito leve e bonito, ao delimitar territórios, impunha uma
certa distância essencial ao respeito pela privacidade dos outros. Entrava-se
por uma elegante cancela de madeira situada lateralmente entre a garagem e a
casa e contornava-se o edifício na direcção da cozinha, na parte de trás.
Apenas em dias de festa se usava a porta principal, com telheiro, à direita
depois de se passar a cancela.
Na porta da cozinha era colocado habitualmente um mosqueiro formado
por uma estrutura de onde pendiam inúmeras fitas metálicas ligadas umas às
outras que abanavam suavemente tilintando mais forte sempre que alguém entrava
ou saía de casa. Além do tio Isaías, da tia Lúcia, dos seus três filhos (Licas,
Amândio e Amelita), dos respectivos cônjuges e dos 5 netos, a casa enchia-se de
convidados (alguns eram familiares, outros apenas amigos), sem contar com os
vizinhos. Havia sempre gente na cozinha ocupada com a loiça ou a preparar as
refeições. Então a tia Lúcia não parava, às voltas com o peixe. A prima Licas,
que tinha carta de condução, ia regularmente com a tia Lúcia abastecer-se à
Praça do Peixe, em Aveiro, onde compravam grandes quantidades de peixe
fresquinho para alimentar os convivas.
Também havia sempre fruta em
abundância que era um regalo. As crianças da família retiravam da fruteira, por
exemplo, um grande tomate e deliciavam-se a comê-lo à dentada o que me deixava
impressionadíssima porque não gostava desse fruto. Os pêssegos, enormes e saborosos, eram o orgulho do tio
Isaías. Havia duas qualidades: os de polpa amarela, muito sumarentos, que se desfaziam na boca e os de polpa
esbranquiçada, rijinhos, bons para quem preferia roer. Íamos muitas vezes até
ao aido escolher pêssegos das árvores para comer ali mesmo, sem os lavar. O tio
Isaías mandara plantar imensos pessegueiros e laranjeiras, um verdadeiro pomar,
cuja produção na sua maior parte se destinava à venda para rendimento e o restante
para consumo da casa. Os métodos utilizados no tratamento das árvores, bastante
inovadores para a época, provocavam um grande aumento da produção (e do tamanho
dos frutos!), por isso era difícil não ficar rendido ao progresso assim alcançado
na exploração frutífera. Lembro-me perfeitamente que em casa da prima Maria,
situada a uma distância considerável, o mel habitualmente abundante chegou a
faltar devido à morte das abelhas, mas ainda não havia consciência da gravidade
da situação. Já depois do 25 de Abril o tio Isaías, revoltado, mandaria
arrancar todas as árvores porque encontrou os seus pêssegos à venda no mercado
por um preço muito superior àquele a que os vendera.
Recordo-me da agitação, do ambiente ruidoso e alegre, da claridade que
chegava a todos os recantos da casa, tudo me parecia mais colorido e bonito. A
sala de jantar, em frente à cozinha, tinha o chão de tijoleira, muito moderno e
pouco vulgar na altura, e além dos móveis habituais, uma lareira. Neste piso
situava-se também a sala de visitas, usada só em ocasiões especiais. No andar
de cima ficavam os quartos. A decoração era simples, tudo muito prático e
funcional.
Os três filhos do tio Isaías tinham personalidades bastantes
diferentes. A prima Amelita, a mais nova, era muito reservada e passava o tempo
no quarto a ler. Frequentava a universidade e acabou por se licenciar em
biologia. O primo Amândio, formado em
medicina, passava pouco tempo em Mataduços, mas nós (eu e os meus irmãos) simpatizávamos
imenso com ele, por ser muito divertido e ter uma maneira engraçada de falar
que nos soava glu-glu e por isso dizíamos que parecia um peru. A prima Licas
era a que convivia mais connosco, porque ela e avó Lena são muito amigas.
Professora do ensino básico, gozava as férias grandes que antigamente duravam
três meses, em Mataduços. Muito desinibida, não se atrapalhava com nada, mas o
mais admirável e raro, na minha opinião, era o seu apuradíssimo sentido de
humor que aliás se mantém até hoje. É impossível ficar indiferente às
observações oportunas e desconcertantes que dirige aos outros e a si própria. Naquele
tempo aparecia em nossa casa, em Aveiro, sempre muito animada e cheia de
projectos e logo se combinava um programa especial para os dias seguintes que
podia incluir uma estadia na Vivenda Lúcia, uma tarde na Feira do Março,
passeios, piqueniques, idas à praia… Inicialmente conduzia um carro (um
Morris?) muito velho, de cor clara, a que dera o nome de “calhordas”, mais
tarde um Mercedes imponente do tio Isaías. Inesquecível quando o combustível
acabava e a prima Licas se abastecia apenas da gasolina suficiente (25
tostões?) para chegar a casa e o pai ir encher o depósito.
Um dia, os proprietários da “Vivenda Lúcia” morreram e, após o processo
de partilhas, a vivenda foi vendida em 1992. O novo proprietário fez obras na
fachada que a descaracterizaram completamente. Mas para nós permanece igual ao
que era anteriormente.

Ainda me lembro de andar de carrinho de rodinhas (empurrado) nesse quintal.
ResponderEliminar