terça-feira, 21 de abril de 2015

Vivenda Lúcia



O nome “Vivenda Lúcia” destacava-se na fachada do edifício escrito com letras manuscritas, moldadas em ferro, tão simples e de acordo com o estilo do conjunto arquitectónico da moradia. Construída ainda na década de 50 pelo tio Isaías (Isaías Gomes Gautier), irmão do avô de Lisboa e dedicada à mulher, a tia Lúcia, distinguia-se pelo seu ar moderno mas sóbrio, no meio das casas rústicas do lugar de Mataduços. Os proprietários moravam no Barreiro, mas era aí que passavam as férias com a família.
A vivenda englobava a garagem e a casa propriamente dita constituída por dois pisos, num edifício contíguo. As paredes exteriores eram revestidas por grandes lajes rugosas que pareciam feitas com uma massa de pedrinhas esmagadas de tom verde claro. Um muro relativamente baixo rematado por um gradeamento em ferro, num estilo muito leve e bonito, ao delimitar territórios, impunha uma certa distância essencial ao respeito pela privacidade dos outros. Entrava-se por uma elegante cancela de madeira situada lateralmente entre a garagem e a casa e contornava-se o edifício na direcção da cozinha, na parte de trás. Apenas em dias de festa se usava a porta principal, com telheiro, à direita depois de se passar a cancela.
Na porta da cozinha era colocado habitualmente um mosqueiro formado por uma estrutura de onde pendiam inúmeras fitas metálicas ligadas umas às outras que abanavam suavemente tilintando mais forte sempre que alguém entrava ou saía de casa. Além do tio Isaías, da tia Lúcia, dos seus três filhos (Licas, Amândio e Amelita), dos respectivos cônjuges e dos 5 netos, a casa enchia-se de convidados (alguns eram familiares, outros apenas amigos), sem contar com os vizinhos. Havia sempre gente na cozinha ocupada com a loiça ou a preparar as refeições. Então a tia Lúcia não parava, às voltas com o peixe. A prima Licas, que tinha carta de condução, ia regularmente com a tia Lúcia abastecer-se à Praça do Peixe, em Aveiro, onde compravam grandes quantidades de peixe fresquinho para alimentar os convivas.
 Também havia sempre fruta em abundância que era um regalo. As crianças da família retiravam da fruteira, por exemplo, um grande tomate e deliciavam-se a comê-lo à dentada o que me deixava impressionadíssima porque não gostava desse fruto. Os pêssegos,  enormes e saborosos, eram o orgulho do tio Isaías. Havia duas qualidades: os de polpa amarela, muito sumarentos,  que se desfaziam na boca e os de polpa esbranquiçada, rijinhos, bons para quem preferia roer. Íamos muitas vezes até ao aido escolher pêssegos das árvores para comer ali mesmo, sem os lavar. O tio Isaías mandara plantar imensos pessegueiros e laranjeiras, um verdadeiro pomar, cuja produção na sua maior parte se destinava à venda para rendimento e o restante para consumo da casa. Os métodos utilizados no tratamento das árvores, bastante inovadores para a época, provocavam um grande aumento da produção (e do tamanho dos frutos!), por isso era difícil não ficar rendido ao progresso assim alcançado na exploração frutífera. Lembro-me perfeitamente que em casa da prima Maria, situada a uma distância considerável, o mel habitualmente abundante chegou a faltar devido à morte das abelhas, mas ainda não havia consciência da gravidade da situação. Já depois do 25 de Abril o tio Isaías, revoltado, mandaria arrancar todas as árvores porque encontrou os seus pêssegos à venda no mercado por um preço muito superior àquele a que os vendera.
Recordo-me da agitação, do ambiente ruidoso e alegre, da claridade que chegava a todos os recantos da casa, tudo me parecia mais colorido e bonito. A sala de jantar, em frente à cozinha, tinha o chão de tijoleira, muito moderno e pouco vulgar na altura, e além dos móveis habituais, uma lareira. Neste piso situava-se também a sala de visitas, usada só em ocasiões especiais. No andar de cima ficavam os quartos. A decoração era simples, tudo muito prático e funcional.
Os três filhos do tio Isaías tinham personalidades bastantes diferentes. A prima Amelita, a mais nova, era muito reservada e passava o tempo no quarto a ler. Frequentava a universidade e acabou por se licenciar em biologia.   O primo Amândio, formado em medicina, passava pouco tempo em Mataduços, mas nós (eu e os meus irmãos) simpatizávamos imenso com ele, por ser muito divertido e ter uma maneira engraçada de falar que nos soava glu-glu e por isso dizíamos que parecia um peru. A prima Licas era a que convivia mais connosco, porque ela e avó Lena são muito amigas. Professora do ensino básico, gozava as férias grandes que antigamente duravam três meses, em Mataduços. Muito desinibida, não se atrapalhava com nada, mas o mais admirável e raro, na minha opinião, era o seu apuradíssimo sentido de humor que aliás se mantém até hoje. É impossível ficar indiferente às observações oportunas e desconcertantes que dirige aos outros e a si própria. Naquele tempo aparecia em nossa casa, em Aveiro, sempre muito animada e cheia de projectos e logo se combinava um programa especial para os dias seguintes que podia incluir uma estadia na Vivenda Lúcia, uma tarde na Feira do Março, passeios, piqueniques, idas à praia… Inicialmente conduzia um carro (um Morris?) muito velho, de cor clara, a que dera o nome de “calhordas”, mais tarde um Mercedes imponente do tio Isaías. Inesquecível quando o combustível acabava e a prima Licas se abastecia apenas da gasolina suficiente (25 tostões?) para chegar a casa e o pai ir encher o depósito.
Um dia, os proprietários da “Vivenda Lúcia” morreram e, após o processo de partilhas, a vivenda foi vendida em 1992. O novo proprietário fez obras na fachada que a descaracterizaram completamente. Mas para nós permanece igual ao que era anteriormente.

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