Fernando Maia dos Santos Neto nasceu em Mataduços no 30 de Julho de
1920 e faleceu em 17 de Maio de 2003, em Aveiro. Era casado com Maria Helena
Moura Gautier Neto e tiveram cinco filhos, eu sou a mais velha.
Era uma pessoa muito reservada. Alguns episódios da sua infância e
juventude chegaram ao meu conhecimento através da minha mãe, a avó Lena para as
gerações mais jovens. Fez parte da chamada instrução primária em Mataduços e
quis a fortuna que fosse sua professora a Sra. D. Madalena Furtado a qual,
apercebendo-se das capacidades deste seu aluno, aconselhou os pais a porem-no a
estudar para garantir um futuro melhor do que o deles. Entretanto a mudança de
toda a família para Coimbra motivou a transferência para outra escola. Ora, o
menino Fernando apercebia-se da falta de preparação da nova professora e não se
calava, corrigia-a, pagando um alto preço por tamanha ousadia. No entanto,
obteve a melhor classificação da sua turma no exame de admissão ao liceu.
A sua infância com certeza decorreu igual à de tantas outras crianças.
Lembro-me perfeitamente de ouvir contar que possuía um talento especial para a
construção e arte de manobrar papagaios de papel. Quando ia passar férias com a
família à Costa Nova adorava fazê-los voar e normalmente vencia as competições
com os outros rapazes.
Costumava dizer que queria ser padeiro e não manifestava qualquer
ambição de estudar. No entanto, o meu avô resolveu seguir o conselho da
professora Sra. D. Madalena e inscreveu-o no liceu, apesar dos fracos recursos
económicos da família. No 1ºano (actual 5º ano), 1ºperíodo, teve notas
positivas baixinhas excepto um 9 a Francês, a sua única negativa durante todo o
percurso escolar. Certo dia um vizinho, pessoa de certo estatuto, perguntou-lhe
pelas notas e comentou que do filho de um padeiro não se podia esperar melhor.
Estas palavras humilharam-no de tal forma que decidiu, naquele momento,
empenhar-se nos estudos, tornando-se um aluno excepcional, pelo que beneficiou
sempre de isenção de propinas. Formou-se em medicina com a classificação de 17
valores o que poderia abrir-lhe portas dentro da faculdade. Mas, naquele tempo,
não era de estranhar que a única vaga existente fosse preenchida preferencialmente
por um candidato filho de um catedrático, apesar da média mais alta ter sido
obtida por um outro licenciado. A hipótese de uma carreira universitária
estava, pois, afastada, mas assim ficava com liberdade para sair de Coimbra
(não gostava da cidade) e ser um verdadeiro médico, o que lhe agradava bastante.
Aos 16 anos, a morte da irmã
com 14 anos foi um acontecimento muito traumático com repercussões na vida
familiar, pois a minha avó impôs um luto rigoroso, um ambiente de tristeza
permanente e, por exemplo, idas ao cemitério duas vezes por semana nas quais se
fazia acompanhar pelo filho. Impedido de viver normalmente a sua juventude,
integrou a tuna, onde tocava violino e o orfeão académico como forma de se
libertar, de sair de casa. Nessa qualidade ainda viajou pelo país, mas devido à
2ª Grande Guerra as idas ao estrangeiro foram canceladas.
Apesar das casas dos avós de Coimbra e de Lisboa em Mataduços serem
contíguas, o meu pai e a minha mãe não se conheciam, porque o avô Salvador e a
avó Isabel iam poucas vezes à terra e o meu pai, se acaso passava alguns dias
por lá, ficava em casa dos tios. Segundo a avó Lena, o meu pai recordava-se do
nascimento dela (9 anos mais nova). Estava a brincar na eira com o tio Isaías
quando o avô de Lisboa chegou com a novidade: uma cegonha tinha acabado de
chegar de Paris com uma menina! Muitos anos mais tarde viriam a encontrar-se
quando o meu pai, já formado, foi convidado para tratar da tia Ilda, irmã da
avó Lena, que precisava de um médico que a acompanhasse nos períodos em que
passava férias em Aveiro.
O resultado desse encontro está à vista: casaram-se e multiplicaram-se,
à razão de um filho por ano.
De acordo com a mentalidade daquela época, geralmente a relação
pai/filhos era algo distante. No entanto recordo alguns momentos de rara cumplicidade
com os filhos. A mim, marcaram-me especialmente aquelas tardes (devia ser
fim-de-semana) em que íamos para os pinhais apanhar grilos. A sua técnica não
falhava. Primeiro tínhamos de, muito silenciosamente, conseguir identificar de
onde vinha o cri-cri. Descoberta a toca enfiava-se pelo buraco uma palha
fininha. Quando o grilo aparecia incomodado pela intromissão era preciso
apanhá-lo sem o mutilar. Também adorávamos quando o meu pai, de repente, resolvia
ir buscar um passarinho metálico que guardava numa gaveta, dava-lhe corda e ele
punha-se aos saltos pelo chão. Ficávamos fascinados e realmente divertíamo-nos
todos muitíssimo. Lembro-me ainda do meu encantamento quando nos levava ao
circo. Numa cidade de província era um acontecimento especial e sentíamo-nos
orgulhosos da sua companhia.
O meu pai trabalhava muito, não só no hospital e na casa de saúde de
Aveiro, mas também nos arredores e em locais relativamente distantes, por vezes
com maus acessos como Sever do Vouga. Chegava a levantar-se várias vezes por
noite. Só depois do 25 de Abril a situação profissional estabilizou passando a
integrar o quadro de efectivos do hospital de Aveiro. Lembro-me perfeitamente de
que, quando apareciam no hospital crianças em estado desesperado devido a
acidente, o meu pai chegava a casa muito impressionado a dizer que não
aguentava assistir a tamanho sofrimento.
Era uma pessoa que não se calava perante as injustiças que encontrava
à sua volta, nomeadamente no local de trabalho. Este feitio, numa época em que
reinava o servilismo, tinha os seus custos. Antes do 25 de Abril, era
suficiente para não merecer a confiança do regime. Por isso, apesar de se
recensear dentro do prazo legal, o seu nome nunca constava dos cadernos
eleitorais, impedindo-o assim de votar.
O meu pai impunha-se pela força do seu carácter, tendo transmitido aos
filhos e aos netos uma filosofia de vida, cujos princípios naturalmente seguimos.
Ensinou-nos, por exemplo, que devemos valorizar apenas o que é essencial no indivíduo,
sem nos deixarmos impressionar pelo estatuto social ou bens materiais que
eventualmente possua. Era um exemplo de grande honestidade e costumava dizer
algo que cito muitas vezes porque, para mim, é uma máxima: ”Ninguém enriquece
com o trabalho”.
Verdadeiro autodidacta, enquanto a saúde lho permitiu, embrenhava-se a
ler livros e revistas ou a ver documentários sobre os mais variados temas, para
se manter actualizado. Esta sua faceta é lembrada, nomeadamente pelos netos,
com muita admiração e como um exemplo a seguir. Todos gostavam de ouvir as suas
opiniões e conselhos. Era um grande patriarca.



%2B001.jpg)


Também costumava dizer "hoje fazes a cama onde te iras deitar amanhã"!
ResponderEliminar