quarta-feira, 11 de fevereiro de 2015

O nosso patriarca


Fernando Maia dos Santos Neto nasceu em Mataduços no 30 de Julho de 1920 e faleceu em 17 de Maio de 2003, em Aveiro. Era casado com Maria Helena Moura Gautier Neto e tiveram cinco filhos, eu sou a mais velha.
Era uma pessoa muito reservada. Alguns episódios da sua infância e juventude chegaram ao meu conhecimento através da minha mãe, a avó Lena para as gerações mais jovens. Fez parte da chamada instrução primária em Mataduços e quis a fortuna que fosse sua professora a Sra. D. Madalena Furtado a qual, apercebendo-se das capacidades deste seu aluno, aconselhou os pais a porem-no a estudar para garantir um futuro melhor do que o deles. Entretanto a mudança de toda a família para Coimbra motivou a transferência para outra escola. Ora, o menino Fernando apercebia-se da falta de preparação da nova professora e não se calava, corrigia-a, pagando um alto preço por tamanha ousadia. No entanto, obteve a melhor classificação da sua turma no exame de admissão ao liceu.
A sua infância com certeza decorreu igual à de tantas outras crianças. Lembro-me perfeitamente de ouvir contar que possuía um talento especial para a construção e arte de manobrar papagaios de papel. Quando ia passar férias com a família à Costa Nova adorava fazê-los voar e normalmente vencia as competições com os outros rapazes.
Costumava dizer que queria ser padeiro e não manifestava qualquer ambição de estudar. No entanto, o meu avô resolveu seguir o conselho da professora Sra. D. Madalena e inscreveu-o no liceu, apesar dos fracos recursos económicos da família. No 1ºano (actual 5º ano), 1ºperíodo, teve notas positivas baixinhas excepto um 9 a Francês, a sua única negativa durante todo o percurso escolar. Certo dia um vizinho, pessoa de certo estatuto, perguntou-lhe pelas notas e comentou que do filho de um padeiro não se podia esperar melhor. Estas palavras humilharam-no de tal forma que decidiu, naquele momento, empenhar-se nos estudos, tornando-se um aluno excepcional, pelo que beneficiou sempre de isenção de propinas. Formou-se em medicina com a classificação de 17 valores o que poderia abrir-lhe portas dentro da faculdade. Mas, naquele tempo, não era de estranhar que a única vaga existente fosse preenchida preferencialmente por um candidato filho de um catedrático, apesar da média mais alta ter sido obtida por um outro licenciado. A hipótese de uma carreira universitária estava, pois, afastada, mas assim ficava com liberdade para sair de Coimbra (não gostava da cidade) e ser um verdadeiro médico, o que lhe agradava bastante.
 Aos 16 anos, a morte da irmã com 14 anos foi um acontecimento muito traumático com repercussões na vida familiar, pois a minha avó impôs um luto rigoroso, um ambiente de tristeza permanente e, por exemplo, idas ao cemitério duas vezes por semana nas quais se fazia acompanhar pelo filho. Impedido de viver normalmente a sua juventude, integrou a tuna, onde tocava violino e o orfeão académico como forma de se libertar, de sair de casa. Nessa qualidade ainda viajou pelo país, mas devido à 2ª Grande Guerra as idas ao estrangeiro foram canceladas.
Apesar das casas dos avós de Coimbra e de Lisboa em Mataduços serem contíguas, o meu pai e a minha mãe não se conheciam, porque o avô Salvador e a avó Isabel iam poucas vezes à terra e o meu pai, se acaso passava alguns dias por lá, ficava em casa dos tios. Segundo a avó Lena, o meu pai recordava-se do nascimento dela (9 anos mais nova). Estava a brincar na eira com o tio Isaías quando o avô de Lisboa chegou com a novidade: uma cegonha tinha acabado de chegar de Paris com uma menina! Muitos anos mais tarde viriam a encontrar-se quando o meu pai, já formado, foi convidado para tratar da tia Ilda, irmã da avó Lena, que precisava de um médico que a acompanhasse nos períodos em que passava férias em Aveiro.  
O resultado desse encontro está à vista: casaram-se e multiplicaram-se, à razão de um filho por ano.
De acordo com a mentalidade daquela época, geralmente a relação pai/filhos era algo distante. No entanto recordo alguns momentos de rara cumplicidade com os filhos. A mim, marcaram-me especialmente aquelas tardes (devia ser fim-de-semana) em que íamos para os pinhais apanhar grilos. A sua técnica não falhava. Primeiro tínhamos de, muito silenciosamente, conseguir identificar de onde vinha o cri-cri. Descoberta a toca enfiava-se pelo buraco uma palha fininha. Quando o grilo aparecia incomodado pela intromissão era preciso apanhá-lo sem o mutilar. Também adorávamos quando o meu pai, de repente, resolvia ir buscar um passarinho metálico que guardava numa gaveta, dava-lhe corda e ele punha-se aos saltos pelo chão. Ficávamos fascinados e realmente divertíamo-nos todos muitíssimo. Lembro-me ainda do meu encantamento quando nos levava ao circo. Numa cidade de província era um acontecimento especial e sentíamo-nos orgulhosos da sua companhia.
O meu pai trabalhava muito, não só no hospital e na casa de saúde de Aveiro, mas também nos arredores e em locais relativamente distantes, por vezes com maus acessos como Sever do Vouga. Chegava a levantar-se várias vezes por noite. Só depois do 25 de Abril a situação profissional estabilizou passando a integrar o quadro de efectivos do hospital de Aveiro. Lembro-me perfeitamente de que, quando apareciam no hospital crianças em estado desesperado devido a acidente, o meu pai chegava a casa muito impressionado a dizer que não aguentava assistir a tamanho sofrimento.
Era uma pessoa que não se calava perante as injustiças que encontrava à sua volta, nomeadamente no local de trabalho. Este feitio, numa época em que reinava o servilismo, tinha os seus custos. Antes do 25 de Abril, era suficiente para não merecer a confiança do regime. Por isso, apesar de se recensear dentro do prazo legal, o seu nome nunca constava dos cadernos eleitorais, impedindo-o assim de votar.
O meu pai impunha-se pela força do seu carácter, tendo transmitido aos filhos e aos netos uma filosofia de vida, cujos princípios naturalmente seguimos. Ensinou-nos, por exemplo, que devemos valorizar apenas o que é essencial no indivíduo, sem nos deixarmos impressionar pelo estatuto social ou bens materiais que eventualmente possua. Era um exemplo de grande honestidade e costumava dizer algo que cito muitas vezes porque, para mim, é uma máxima: ”Ninguém enriquece com o trabalho”.
Verdadeiro autodidacta, enquanto a saúde lho permitiu, embrenhava-se a ler livros e revistas ou a ver documentários sobre os mais variados temas, para se manter actualizado. Esta sua faceta é lembrada, nomeadamente pelos netos, com muita admiração e como um exemplo a seguir. Todos gostavam de ouvir as suas opiniões e conselhos. Era um grande patriarca.




ÁLBUM DO NOSSO PATRIARCA



Em bebé, 1921?


Estudante de medicina; sem data



Do livro de curso; 1943



Já casado; sem data



Com 70 anos, 1990



Bodas de ouro, Janeiro de 2000

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