sexta-feira, 6 de junho de 2014

O Ti Santinho

O Ti Santinho era tio-bisavô da avó Lena. Chamava-se Manuel José de Moura. Nasceu em 2/11/1825 e faleceu em 7/11/1917.
 Desde pequena que me sinto fascinada por esta personagem que podemos considerar lendária. Parece-me, aliás, que é o antepassado mais citado e influente do nosso imaginário familiar. Foi, com certeza, um homem digno do maior respeito e admiração em Mataduços e Alumieira, não só por ser uma “pessoa de teres”, o que lhe conferiria um certo estatuto naquela época, mas sobretudo por possuir um carácter exemplar a vários níveis. Naquela época muito anterior à nossa sociedade consumista, o Ti Santinho devia destacar-se por ser uma pessoa particularmente íntegra e austera e impressionar por isso os seus conterrâneos, dando origem às histórias que chegaram até nós.
A sua santidade, pelo que se diz, era tal que não casou nem teve filhos. Daí também o diminutivo Ti Santinho pelo qual ficou conhecido. Outro aspecto muito referido é a sua sobriedade e preocupação em poupar para deixar uma boa herança. Assim, durante a noite quando estava na cama, se pretendia mudar de posição e voltar-se para o outro lado, levantava-se para o fazer sem gastar os lençóis. Esta história continua a ser recordada quando se quer chamar a atenção para a importância de poupar: “Devias fazer como o Ti Santinho…” Existe na nossa casa de Aveiro um lençol de linho herdado deste antepassado que tem uma característica rara: o entremeio (renda) está colocado no sentido do comprimento e não da largura (barra), como é habitual.
Segundo costuma contar a Avó Lena, o Ti Santinho teria os seus métodos originais para poupar na alimentação: atava um cordel à volta de um bocadinho de bacalhau e, quando as batatas estavam a cozer, com a ajuda do fio mergulhava por momentos o bacalhau na água, que depois retirava e voltava a utilizar para preparar as refeições seguintes. Muito engenhoso, sem dúvida. Será verdade?
Outra história ligada ao Ti Santinho apresenta contornos menos nítidos e relaciona-se com a sua fortuna. Diz-se que antes de se deitar o Ti Santinho costumava contar as moedas e fazer “carneirinhos”. Ou serão “carreirinhos”? Não foi possível esclarecer qual o termo original bem como o seu significado exacto.
Conta-se também que teria deixado um tesouro escondido nas paredes da casa onde morava, precisamente a que veio a pertencer, por herança, à Tia de Alumieira, como nós lhe chamávamos (casada com José Gomes Gautier, irmão do Avô de Lisboa). Cada vez que se realizavam obras na casa esta história era desenterrada, mas não só a família como os mestres-de-obras envolvidos sempre negaram a descoberta de qualquer tesouro. É um grande mistério.
A identidade familiar depende bastante da capacidade de manter vivas estas e outras histórias dos nossos antepassados transmitindo-as às gerações mais jovens.