O Ti Santinho era
tio-bisavô da avó Lena. Chamava-se Manuel José de Moura. Nasceu em 2/11/1825 e faleceu em 7/11/1917.
Desde pequena que me sinto fascinada por esta
personagem que podemos considerar lendária. Parece-me, aliás, que é o
antepassado mais citado e influente do nosso imaginário familiar. Foi, com
certeza, um homem digno do maior respeito e admiração em Mataduços e Alumieira,
não só por ser uma “pessoa de teres”, o que lhe conferiria um certo estatuto
naquela época, mas sobretudo por possuir um carácter exemplar a vários níveis. Naquela
época muito anterior à nossa sociedade consumista, o Ti Santinho devia destacar-se
por ser uma pessoa particularmente íntegra e austera e impressionar por isso os
seus conterrâneos, dando origem às histórias que chegaram até nós.
A sua santidade, pelo
que se diz, era tal que não casou nem teve filhos. Daí também o diminutivo Ti
Santinho pelo qual ficou conhecido. Outro aspecto muito referido é a sua
sobriedade e preocupação em poupar para deixar uma boa herança. Assim, durante a
noite quando estava na cama, se pretendia mudar de posição e voltar-se para o
outro lado, levantava-se para o fazer
sem gastar os lençóis. Esta história continua a ser recordada quando se quer
chamar a atenção para a importância de poupar: “Devias fazer como o Ti
Santinho…” Existe na nossa casa de Aveiro um lençol de linho herdado deste antepassado
que tem uma característica rara: o entremeio (renda) está colocado no sentido
do comprimento e não da largura (barra), como é habitual.
Segundo costuma contar
a Avó Lena, o Ti Santinho teria os seus métodos originais para poupar na
alimentação: atava um cordel à volta de um bocadinho de bacalhau e, quando as
batatas estavam a cozer, com a ajuda do fio mergulhava por momentos o bacalhau
na água, que depois retirava e voltava a utilizar para preparar as refeições
seguintes. Muito engenhoso, sem dúvida. Será verdade?
Outra história ligada
ao Ti Santinho apresenta contornos menos nítidos e relaciona-se com a sua
fortuna. Diz-se que antes de se deitar o Ti Santinho costumava contar as moedas
e fazer “carneirinhos”. Ou serão “carreirinhos”? Não foi possível esclarecer qual
o termo original bem como o seu significado exacto.
Conta-se também que
teria deixado um tesouro escondido nas paredes da casa onde morava,
precisamente a que veio a pertencer, por herança, à Tia de Alumieira, como nós
lhe chamávamos (casada com José Gomes Gautier, irmão do Avô de Lisboa). Cada
vez que se realizavam obras na casa esta história era desenterrada, mas não só
a família como os mestres-de-obras envolvidos sempre negaram a descoberta de
qualquer tesouro. É um grande mistério.
A identidade familiar
depende bastante da capacidade de manter vivas estas e outras histórias dos
nossos antepassados transmitindo-as às gerações mais jovens.