quarta-feira, 26 de novembro de 2014

O Tio Isaías

O tio Isaías, irmão mais velho da avó Lena, era o nosso único tio. Nasceu em Mataduços em 30/09/1921 e faleceu em Lisboa em 01/08/1983. Adorado por todos os sobrinhos, depois do seu divórcio começou a passar o Natal, em Aveiro, connosco. Muito extrovertido e alegre, animava as nossas férias com as suas “ideias loucas” pelo que, sem qualquer exagero, podemos afirmar que, durante aqueles dias, vivíamos em permanente festa. Organizava, por exemplo, o concurso do Mister ou da Miss pasteleira do respectivo ano. Com a devida antecedência aprimorávamo-nos na confecção das mais deliciosas sobremesas que teriam de ser submetidas ao julgamento de um exigente júri. O vencedor(a) seria laureado com uma faixa (de papel higiénico) com inscrição alusiva à proeza. Oferecia-nos prendas originais trazidas da capital ou das suas viagens ao estrangeiro, acompanhadas de um cartão de Boas Festas muito ternurento sempre com uma piada oportuna que provocava a gargalhada geral de toda a família.
O tio Isaías gostava muito de desportos náuticos. Na sua juventude foi praticante de natação e de remo de competição. Mais tarde interessou-se também pela pesca desportiva. Além disso, costumava praticar esqui aquático, durante os fins-de-semana, grande parte do ano. Para o efeito, possuía um pequeno barco a motor de que muito se orgulhava e era o seu luxo devido ao elevado custo em manutenção e combustível. Também sabia esquiar na neve, o que era bastante invulgar naquela época, actividade que abandonou depois de um acidente em que fracturou de um pé, em Espanha.
O tio Isaías construiu uma casa rústica num local isolado, conhecido por Massapés, perto de Sesimbra. De facto, apenas mandou erguer as paredes e o telhado, ficando os acabamentos à sua conta. Muitos fins-de-semana foram passados a pintar, envernizar e outros trabalhos tanto no interior como no exterior da habitação. Familiares e amigos contribuíram para esta empreitada com a sua mão-de-obra. Por fim a casa ficou pronta e muito bonita, decorada de maneira extremamente sóbria e funcional.
O tio Isaías era licenciado em economia e desempenhava um cargo de grande responsabilidade nos serviços de manutenção da TAP. Na qualidade de funcionário da empresa, gozava de algumas facilidades para viajar de avião o que lhe permitiu conhecer bastantes países no continente europeu, mas também no americano e até na Ásia. Nestas viagens, algumas vezes fez-se acompanhar pelo seu “amado filho” como costumava dizer muito orgulhoso, e partir de certa altura era com a Nane, sua companheira de mais de uma dezena de anos, que fazia férias no estrangeiro. 
Devida à sua forte personalidade, envolveu-se em projectos que muito contribuíram para engrandecer a empresa onde trabalhava. Era o sócio nº 1 da Cooperativa da TAP que ajudara a criar. Além disso, no meio automobilístico é reconhecido o seu papel na organização do 1º Rallye Internacional TAP.
Afectuoso e cheio de energia, gostava muito de viver cá na terra. Por isso a vida foi extremamente ingrata para com ele pregando-lhe uma enorme partida: de forma inesperada ficou diminuído nas suas capacidades e completamente dependente. Veio a falecer vários meses depois em casa da mãe, a nossa avó Ermelinda.




ÁLBUM DO TIO ISAÍAS


Verão de 1937


Verão de 1938; é o 2º à direita


Nas Pastoras, 1939


Nas Pastoras, 01/01, 1945


Na apresentação do 1º Rallye Internacional TAP, 1967


Na casa de Massapés, 1975


Natal em Aveiro, 1975


Com o sobrinho-neto, 1977


Correspondência para os sobrinhos

quinta-feira, 6 de novembro de 2014

Os Avós de Coimbra

Era assim que chamávamos aos nossos avós paternos. Nasceram ambos em Mataduços, o meu avô Salvador dos Santos Neto Júnior em 11.03.1896 e a minha avó Isabel de Oliveira Maia em 21.09.1894, mas viviam em Coimbra. Vou recordá-los como casal, seria muito difícil falar deles separadamente, o meu avó sempre preocupado com a saúde e o bem-estar da sua Isabel e a minha avó, embora fosse muito introvertida, facilmente se percebia que não conseguiria viver sem a companhia atenta e amiga do marido. Tanto assim que o meu avô faleceu em 22.08.74 e a minha avó pouco tempo sobreviveu falecendo em 9.01.75. A morte de uma filha com 14 anos, em 1936, lançou-a numa profunda depressão. Toda a sua vida ficou marcada por esse acontecimento traumático, impôs a si própria e em casa um luto muito rigoroso que se prolongou por vários anos e só a partir do casamento do filho e do nascimento dos netos começou a mostrar mais interesse pela vida.
Entre os 4 e os 6 anos vivi com os meus avós que moravam na Rua de S. Salvador, na chamada Alta de Coimbra, uma zona antiga de ruas estreitas, empedradas, numa casa que do lado das traseiras tinha em frente a torre da universidade.  Frequentava o Jardim–Escola João de Deus, mas ficava com bastante tempo livre para fazer companhia à minha avó em casa e quando saía. Acrescente-se que a minha avó me tratava como uma princesinha. Tricotava para nós vestidos e camisolas dignos de capa de revista, e pelo menos a mim, que era a sua preferida, por ser a mais velha e por me achar parecida com a Tia Augustinha, a filha que perdera, dava-me muitas vezes cinco tostões para comprar rebuçados e, é claro, muitos mimos. Feliz e muito inocente, incentivada pela minha avó, cantava e dançava com a maior naturalidade na presença de vizinhas e amigas, lembro-me em especial a Sra. Enfermeira que morava em frente e era visita assídua lá de casa.  
Recordo com saudade o cheirinho a açúcar queimado quando fazia o pudim chinês, cuja confecção não confiava à criada possivelmente porque, no seu entender, exigia grandes apuros (ou teria também algum segredo?) que não estavam ao alcance de qualquer pessoa. O mesmo acontecia sempre que um cozinhado saía um pouco da rotina. Aos domingos normalmente comia-se borrego assado no forno da padaria do avô que ficava perto. Lembro-me do avó a atender os clientes ao balcão da padaria e de me levar a visitar as instalações que eram domínio da gata que ele muito estimava. E mais uma vez sinto um aroma muito agradável, a farinha e a pão fresco. Mas o perfume mais maravilhoso de que me recordo era o do pão torrado, feito na grelha do radiador que se voltava para cima a servir de torradeira.
A minha avó gostava de andar bem arranjada e tinha bom gosto. Era uma mulher elegante e alta, para a sua geração. Muito exigente também. Talvez por isso quando pretendia comprar, por exemplo, uns sapatos não se coibia de experimentar tantos pares quantos os necessários até encontrar o que pretendia. E, como era comum naquela época, discutia acerrimamente o preço.
Lembro-me que ao jantar normalmente comíamos “aferventado” que era peixe cozido, eventualmente bacalhau, com batatas e legumes. Muitas vezes sobrava um bocadinho de comida na travessa e então travava-se um diálogo mais ou menos assim. Avô: “Ninguém quer comer mais, não é verdade? Posso levar para a gatinha?” Avó: “Quero eu.” Costumo contar este episódio que revela bem o carácter dos dois. O avô era um “mãos largas” e “coração grande” até para os animais. Sempre bem-disposto, optimista e pronto para ajudar os outros, era incapaz de dizer não e, por isso, por exemplo, frequentemente lhe pediam dinheiro emprestado. A avó mais realista, “com os pés bem assentes na terra” e muito poupada. Portanto não é de admirar que, embora de forma a não contrariar abertamente o meu avô, reclamasse para si as sobras do jantar. De facto, geralmente só se davam aos animais os restos dos restos, aquilo era esbanjar comida, um verdadeiro desperdício para a mentalidade das pessoas daquele tempo.
Talvez por serem tão diferentes os meus avós completavam-se na perfeição!






ÁLBUM DOS AVÓS DE COIMBRA


Avô Salvador aos 18 anos


Avô Salvador com a avó em pensamento, 18/06/1919


Em 1928


Sem data


Avó Isabel em 1962


Nas bodas de oiro, 5 de Outubro de 1969


Nas bodas de oiro com os netos, 5 de Outubro de 1969


Algures num casamento, sem data