Era assim que chamávamos aos nossos avós paternos. Nasceram ambos em
Mataduços, o meu avô Salvador dos Santos Neto Júnior em 11.03.1896 e a minha
avó Isabel de Oliveira Maia em 21.09.1894, mas viviam em Coimbra. Vou
recordá-los como casal, seria muito difícil falar deles separadamente, o meu
avó sempre preocupado com a saúde e o bem-estar da sua Isabel e a minha avó,
embora fosse muito introvertida, facilmente se percebia que não conseguiria
viver sem a companhia atenta e amiga do marido. Tanto assim que o meu avô
faleceu em 22.08.74 e a minha avó pouco tempo sobreviveu falecendo em 9.01.75. A
morte de uma filha com 14 anos, em 1936, lançou-a numa profunda depressão. Toda
a sua vida ficou marcada por esse acontecimento traumático, impôs a si própria
e em casa um luto muito rigoroso que se prolongou por vários anos e só a partir
do casamento do filho e do nascimento dos netos começou a mostrar mais
interesse pela vida.
Entre os 4 e os 6 anos vivi com os meus avós que moravam na Rua de S.
Salvador, na chamada Alta de Coimbra, uma zona antiga de ruas estreitas,
empedradas, numa casa que do lado das traseiras tinha em frente a torre da universidade. Frequentava o Jardim–Escola João de Deus, mas
ficava com bastante tempo livre para fazer companhia à minha avó em casa e
quando saía. Acrescente-se que a minha avó me tratava como uma princesinha. Tricotava
para nós vestidos e camisolas dignos de capa de revista, e pelo menos a mim,
que era a sua preferida, por ser a mais velha e por me achar parecida com a Tia
Augustinha, a filha que perdera, dava-me muitas vezes cinco tostões para
comprar rebuçados e, é claro, muitos mimos. Feliz e muito inocente, incentivada
pela minha avó, cantava e dançava com a maior naturalidade na presença de
vizinhas e amigas, lembro-me em especial a Sra. Enfermeira que morava em frente
e era visita assídua lá de casa.
Recordo com saudade o cheirinho a açúcar queimado quando fazia o pudim
chinês, cuja confecção não confiava à criada possivelmente porque, no seu
entender, exigia grandes apuros (ou teria também algum segredo?) que não
estavam ao alcance de qualquer pessoa. O mesmo acontecia sempre que um
cozinhado saía um pouco da rotina. Aos domingos normalmente comia-se borrego
assado no forno da padaria do avô que ficava perto. Lembro-me do avó a atender
os clientes ao balcão da padaria e de me levar a visitar as instalações que
eram domínio da gata que ele muito estimava. E mais uma vez sinto um aroma
muito agradável, a farinha e a pão fresco. Mas o perfume mais maravilhoso de
que me recordo era o do pão torrado, feito na grelha do radiador que se voltava
para cima a servir de torradeira.
A minha avó gostava de andar bem arranjada e tinha bom gosto. Era uma
mulher elegante e alta, para a sua geração. Muito exigente também. Talvez por
isso quando pretendia comprar, por exemplo, uns sapatos não se coibia de
experimentar tantos pares quantos os necessários até encontrar o que pretendia.
E, como era comum naquela época, discutia acerrimamente o preço.
Lembro-me que ao jantar normalmente comíamos “aferventado” que era
peixe cozido, eventualmente bacalhau, com batatas e legumes. Muitas vezes sobrava
um bocadinho de comida na travessa e então travava-se um diálogo mais ou menos
assim. Avô: “Ninguém quer comer mais, não é verdade? Posso levar para a
gatinha?” Avó: “Quero eu.” Costumo contar este episódio que revela bem o
carácter dos dois. O avô era um “mãos largas” e “coração grande” até para os
animais. Sempre bem-disposto, optimista e pronto para ajudar os outros, era
incapaz de dizer não e, por isso, por exemplo, frequentemente lhe pediam
dinheiro emprestado. A avó mais realista, “com os pés bem assentes na terra” e
muito poupada. Portanto não é de admirar que, embora de forma a não contrariar
abertamente o meu avô, reclamasse para si as sobras do jantar. De facto, geralmente
só se davam aos animais os restos dos restos, aquilo era esbanjar comida, um
verdadeiro desperdício para a mentalidade das pessoas daquele tempo.
Talvez por serem tão diferentes os meus avós completavam-se na
perfeição!
ÁLBUM DOS AVÓS DE COIMBRA
Avô Salvador aos 18 anos
Avô Salvador com a avó em pensamento, 18/06/1919
Em 1928
Sem data
Avó Isabel em 1962
Nas bodas de oiro, 5 de Outubro de 1969
Nas bodas de oiro com os netos, 5 de Outubro de 1969
Algures num casamento, sem data



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