quinta-feira, 6 de novembro de 2014

Os Avós de Coimbra

Era assim que chamávamos aos nossos avós paternos. Nasceram ambos em Mataduços, o meu avô Salvador dos Santos Neto Júnior em 11.03.1896 e a minha avó Isabel de Oliveira Maia em 21.09.1894, mas viviam em Coimbra. Vou recordá-los como casal, seria muito difícil falar deles separadamente, o meu avó sempre preocupado com a saúde e o bem-estar da sua Isabel e a minha avó, embora fosse muito introvertida, facilmente se percebia que não conseguiria viver sem a companhia atenta e amiga do marido. Tanto assim que o meu avô faleceu em 22.08.74 e a minha avó pouco tempo sobreviveu falecendo em 9.01.75. A morte de uma filha com 14 anos, em 1936, lançou-a numa profunda depressão. Toda a sua vida ficou marcada por esse acontecimento traumático, impôs a si própria e em casa um luto muito rigoroso que se prolongou por vários anos e só a partir do casamento do filho e do nascimento dos netos começou a mostrar mais interesse pela vida.
Entre os 4 e os 6 anos vivi com os meus avós que moravam na Rua de S. Salvador, na chamada Alta de Coimbra, uma zona antiga de ruas estreitas, empedradas, numa casa que do lado das traseiras tinha em frente a torre da universidade.  Frequentava o Jardim–Escola João de Deus, mas ficava com bastante tempo livre para fazer companhia à minha avó em casa e quando saía. Acrescente-se que a minha avó me tratava como uma princesinha. Tricotava para nós vestidos e camisolas dignos de capa de revista, e pelo menos a mim, que era a sua preferida, por ser a mais velha e por me achar parecida com a Tia Augustinha, a filha que perdera, dava-me muitas vezes cinco tostões para comprar rebuçados e, é claro, muitos mimos. Feliz e muito inocente, incentivada pela minha avó, cantava e dançava com a maior naturalidade na presença de vizinhas e amigas, lembro-me em especial a Sra. Enfermeira que morava em frente e era visita assídua lá de casa.  
Recordo com saudade o cheirinho a açúcar queimado quando fazia o pudim chinês, cuja confecção não confiava à criada possivelmente porque, no seu entender, exigia grandes apuros (ou teria também algum segredo?) que não estavam ao alcance de qualquer pessoa. O mesmo acontecia sempre que um cozinhado saía um pouco da rotina. Aos domingos normalmente comia-se borrego assado no forno da padaria do avô que ficava perto. Lembro-me do avó a atender os clientes ao balcão da padaria e de me levar a visitar as instalações que eram domínio da gata que ele muito estimava. E mais uma vez sinto um aroma muito agradável, a farinha e a pão fresco. Mas o perfume mais maravilhoso de que me recordo era o do pão torrado, feito na grelha do radiador que se voltava para cima a servir de torradeira.
A minha avó gostava de andar bem arranjada e tinha bom gosto. Era uma mulher elegante e alta, para a sua geração. Muito exigente também. Talvez por isso quando pretendia comprar, por exemplo, uns sapatos não se coibia de experimentar tantos pares quantos os necessários até encontrar o que pretendia. E, como era comum naquela época, discutia acerrimamente o preço.
Lembro-me que ao jantar normalmente comíamos “aferventado” que era peixe cozido, eventualmente bacalhau, com batatas e legumes. Muitas vezes sobrava um bocadinho de comida na travessa e então travava-se um diálogo mais ou menos assim. Avô: “Ninguém quer comer mais, não é verdade? Posso levar para a gatinha?” Avó: “Quero eu.” Costumo contar este episódio que revela bem o carácter dos dois. O avô era um “mãos largas” e “coração grande” até para os animais. Sempre bem-disposto, optimista e pronto para ajudar os outros, era incapaz de dizer não e, por isso, por exemplo, frequentemente lhe pediam dinheiro emprestado. A avó mais realista, “com os pés bem assentes na terra” e muito poupada. Portanto não é de admirar que, embora de forma a não contrariar abertamente o meu avô, reclamasse para si as sobras do jantar. De facto, geralmente só se davam aos animais os restos dos restos, aquilo era esbanjar comida, um verdadeiro desperdício para a mentalidade das pessoas daquele tempo.
Talvez por serem tão diferentes os meus avós completavam-se na perfeição!






ÁLBUM DOS AVÓS DE COIMBRA


Avô Salvador aos 18 anos


Avô Salvador com a avó em pensamento, 18/06/1919


Em 1928


Sem data


Avó Isabel em 1962


Nas bodas de oiro, 5 de Outubro de 1969


Nas bodas de oiro com os netos, 5 de Outubro de 1969


Algures num casamento, sem data

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