O Ti Junqueiro (Manuel
Rodrigues Junqueiro) nasceu em Mataduços e morreu em Lisboa com 93 anos, no dia
4 de Dezembro de 1957. Casado com Helena Simões de Moura, irmã da mãe da avó
Ermelinda, ficou viúvo muito cedo. A avó Ermelinda foi criada por estes tios,
relativamente abastados, que não tinham filhos, para “aliviar” os pais e por
ser muito fraquinha.
Parece que estou a
vê-lo sentado numa cadeira à janela, com vista para a Rua Morais Soares, na
salinha onde a avó passava bastante tempo à volta das suas costuras e outros
afazeres. O Ti Junqueiro com o seu imponente bigode branco e uma manta pelos
joelhos, para mim, permanece no seu cantinho, mas não consigo lembrar-me nem da
sua voz nem de o ouvir falar (eu teria entre 4, 6 anos). A minha avó tratava-o
com uma dedicação sem limites e, apesar de ser muito pequena, apercebia-me que
todos o respeitavam por ocupar o lugar mais importante na hierarquia familiar
devido à sua idade.
O Ti Junqueiro em novo
veio trabalhar como padeiro para Lisboa. Ter-se-á adaptado bem à sociedade
lisboeta pois aprendeu o jogo do pau (existe uma foto que ilustra esta sua
faceta), muito popular naquele tempo, e, segundo consta, era namoradeiro e gostava
de tentar a sua sorte fazendo a corte às criadas às escondidas dos patrões.
Quando se casou com a
Ti Helena, voltou para Mataduços, continuando a trabalhar como padeiro.
Entretanto foi adquirindo praias de juncos, que naquela época valiam muito, e tinha
uma bateira que servia essencialmente para o seu transporte na ria. O junco era
um material de grande utilidade. Com ele se cobria o chão dos currais e dos
pátios. Em determinada altura do ano, recolhia-se e empilhava-se em grandes
medas para fermentar. Passado algum tempo, o estrume estava em condições de adubar
a terra para as sementeiras. Segundo conta a avó Lena, a principal fonte para a
reconstituição da figura do Ti Junqueiro, ao domingo, depois da missa, os
homens aproveitavam para tratar de negócios e o Ti Junqueiro era abordado por
aqueles que queriam comprar junco.
Muito famosa no
círculo da nossa família restrita e mil vezes repetida é a história do pão de
trigo. Naquele tempo, o pão de trigo era muito raro e, pelo menos em Mataduços,
destinava-se, em especial, às pessoas que se encontravam muito doentes. Certo
dia, o pai do Ti Junqueiro incumbiu-o de ir à Póvoa do Paço comprar um pão de
trigo para dar a um irmão que estava muito mal. Não resistindo à tentação, o Ti
Junqueiro fez um buraquinho e tirou o miolo ao pão. Pagou caro este
atrevimento, pois o pai atirou-lhe uma acha à perna, deixando-lhe uma marca
para toda a vida.
Outro episódio
revelador da mentalidade das pessoas da aldeia ter-se-á passado com o seu irmão,
António, quando estava na tropa (o Ti Junqueiro preferiu pagar uma taxa para
ficar dispensado do serviço militar). O oficial pediu-lhe para despejar o “vaso
de noite”, que antigamente era de loiça, dizendo com ironia: “Agora, parte-o!”
Tomando à letra estas palavras foi o que ele fez. Sempre que os dois irmãos, Manuel
e António, se juntavam, todos se divertiam com as suas aventuras, lembra a avó
Lena, este é apenas um exemplo dessas conversas em família.
Quando o Ti Junqueiro
ficou viúvo teve de arranjar uma “moça” para se ocupar da casa e dos animais.
De acordo com as normas daquele tempo, para evitar mal entendidos, uma das sobrinhas
ia dormir lá a casa todas as noites. Nos últimos anos de vida, devido à sua
idade avançada, morou em Lisboa com a
sobrinha que criara, a nossa avó Ermelinda.
Nota: A avó Lena diz
que a leitura deste texto lhe despoletou memórias muito antigas e levou-a a
recordar-se, apesar de terem decorrido cerca de 80 anos, da imagem do Ti
Junqueiro, sentado na soleira da porta da cozinha, na casa de Mataduços, a
tratar das suas mazelas com sanguessugas nas pernas.
ÁLBUM DO TI JUNQUEIRO
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| Em 1947 |
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| Sem data |
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