sexta-feira, 11 de julho de 2014

O avô de Lisboa

A minha mãe (a avó Lena para as gerações mais novas) guarda numa pasta vários esboços da nossa árvore genealógica e outras informações de interesse relacionadas com a família e o lugar de Mataduços, quase todas obtidas pela prima Gracinha e pelo meu irmão Fernando que investiu muito do seu tempo livre a pesquisar sobre as nossas raízes. No meio dos papéis encontrava-se uma folha onde a avó Lena registou algumas histórias envolvendo o avô de Lisboa (António Gomes Gautier nascido em 1895 e falecido em 1962).

Segue-se a transcrição dos apontamentos da avó Lena:
«O meu pai foi trabalhar para Lisboa com 13 anos. Costumava recordar que à despedida, na estação do Caminho de Ferro de Aveiro, chorava tanto que beijou a mão a todas as pessoas presentes no local, incluindo o chefe da estação.
O meu pai tinha uma ligação muito forte ao seu avô Lourenço e, por isso, sentia imensas saudades dele. Antes de ir viver para Lisboa, como era o mais velho já trabalhava muito a ajudar os pais, no campo e o avô tinha muita pena dele. Além disso partilhava a comida com o neto e, ao domingo, dava-lhe uma malguinha de vinho. O meu pai garantia que na noite do falecimento deste avô, sonhara com a sua morte.
Naquele tempo, de Mataduços e das aldeias em redor saíram muitos rapazes para trabalhar nas padarias e, normalmente, eram acolhidos por conterrâneos já estabelecidos na capital. O meu pai foi trabalhar para os Cabeças da Póvoa do Paço. Os empregados viviam nas padarias em pequenos quartos e utilizavam o forno para fazer a comida.
O meu pai contava que, quando mandaram o meu tio José (irmão mais novo dele) trabalhar para Lisboa, foi esperá-lo à estação. Nessa altura já se vestia à moda de Lisboa, enquanto o irmão ia com as roupas que se usavam na aldeia, muito preocupado porque tinha consigo algum dinheiro, que era costume darem-lhes para levar, mas fora avisado para ter cuidado com os vigaristas.
Então o meu pai disse-lhe:
- Todos os homens que usam chapéu de palha (era moda nesse tempo) são “vigairistas”.
O tio José apertou os braços ao corpo com medo que o roubassem e seguiu atrás do meu pai, a olhar para todos os lados, muito desconfiado.»
É pena o relato acabar aqui.

Queria apenas acrescentar que um outro irmão, Isaías, viria para Lisboa, acabando por se estabelecer no Barreiro. Os três irmãos, sempre inseparáveis, tornaram-se  industriais de panificação. O meu avó foi homenageado, já perto do fim da vida, recebendo uma medalha de reconhecimento pelo sucesso alcançado no seu ramo de actividade.


ÁLBUM DO AVÔ DE LISBOA


 Foto não datada


                                                         Foto datada de 1935


                                     Paisagem do Vouga, Verão de 1947


Na padaria, não datada.
Ao lado do avô está uma criança:
o seu filho Isaías


Avô de Lisboa com três netos em 1955



1 comentário:

  1. Curioso a panificação ter sido o negócio de família e que não tenha durado até às nossas gerações. Seria interessante perceber porquê.

    ResponderEliminar