A minha mãe (a avó
Lena para as gerações mais novas) guarda numa pasta vários esboços da nossa árvore
genealógica e outras informações de interesse relacionadas com a família e o
lugar de Mataduços, quase todas obtidas pela prima Gracinha e pelo meu irmão Fernando
que investiu muito do seu tempo livre a pesquisar sobre as nossas raízes. No
meio dos papéis encontrava-se uma folha onde a avó Lena registou algumas histórias
envolvendo o avô de Lisboa (António Gomes Gautier nascido em 1895 e falecido em
1962).
Segue-se a transcrição
dos apontamentos da avó Lena:
«O meu pai foi trabalhar
para Lisboa com 13 anos. Costumava recordar que à despedida, na estação do
Caminho de Ferro de Aveiro, chorava tanto que beijou a mão a todas as pessoas
presentes no local, incluindo o chefe da estação.
O meu pai tinha uma
ligação muito forte ao seu avô Lourenço e, por isso, sentia imensas saudades
dele. Antes de ir viver para Lisboa, como era o mais velho já trabalhava muito
a ajudar os pais, no campo e o avô tinha muita pena dele. Além disso partilhava
a comida com o neto e, ao domingo, dava-lhe uma malguinha de vinho. O meu pai
garantia que na noite do falecimento deste avô, sonhara com a sua morte.
Naquele tempo, de
Mataduços e das aldeias em redor saíram muitos rapazes para trabalhar nas
padarias e, normalmente, eram acolhidos por conterrâneos já estabelecidos na
capital. O meu pai foi trabalhar para os Cabeças da Póvoa do Paço. Os
empregados viviam nas padarias em pequenos quartos e utilizavam o forno para
fazer a comida.
O meu pai contava que,
quando mandaram o meu tio José (irmão mais novo dele) trabalhar para Lisboa,
foi esperá-lo à estação. Nessa altura já se vestia à moda de Lisboa, enquanto o
irmão ia com as roupas que se usavam na aldeia, muito preocupado porque tinha
consigo algum dinheiro, que era costume darem-lhes para levar, mas fora avisado
para ter cuidado com os vigaristas.
Então o meu pai
disse-lhe:
- Todos os homens que
usam chapéu de palha (era moda nesse tempo) são “vigairistas”.
O tio José apertou os
braços ao corpo com medo que o roubassem e seguiu atrás do meu pai, a olhar
para todos os lados, muito desconfiado.»
É pena o relato acabar
aqui.
Queria apenas acrescentar
que um outro irmão, Isaías, viria para Lisboa, acabando por se estabelecer no
Barreiro. Os três irmãos, sempre inseparáveis, tornaram-se industriais de panificação. O meu avó foi
homenageado, já perto do fim da vida, recebendo uma medalha de reconhecimento
pelo sucesso alcançado no seu ramo de actividade.
ÁLBUM DO AVÔ DE LISBOA
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Curioso a panificação ter sido o negócio de família e que não tenha durado até às nossas gerações. Seria interessante perceber porquê.
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