A casa de Mataduços é muito velhinha. Aí residiu o Tio Junqueiro
(1864-1957) primeiro com a mulher, a Tia Helena (1874-1936), e depois na
condição de viúvo. A partir de certa idade foi morar para Lisboa, em casa da sua
sobrinha Ermelinda que criara como filha, a nossa “avó de Lisboa”, onde
naturalmente beneficiava de um maior acompanhamento familiar recebendo os
cuidados e carinho que são devidos a “um mais velho”.
As minhas memórias mais remotas desta casa datam de meados do século
XX (!), ainda o Tio Junqueiro era vivo. A avó de Lisboa, que fora beneficiada
na herança em relação aos outros sobrinhos, herdara a casa, de acordo com a
vontade expressa em testamento pela Tia Helena. A Clélia, uma criada, como
então se dizia, tomava conta dela e tratava da criação e do aido, uma vez que
os patrões passavam a maior parte do ano em Lisboa. Mas os três filhos, Isaías,
Ilda e Helena (a avó Lena) nasceram como não podia deixar de ser na casa de
Mataduços, dando continuidade a uma tradição que se perdeu totalmente por
diversos motivos.
Alguns costumes são tão antigos que a avó Lena recorda-se de ouvir
falar mas não são do seu tempo. É o caso da confecção de colchas, realizada por
tecedeiras que residiam perto de Mataduços, a partir da lã obtida pela tosquia
das ovelhas lá de casa depois de tratada e fiada ao serão, em família. Três
colchas lindíssimas que datam dessa época encontravam-se na posse da Avó Lena
que entretanto as legou às filhas. Estão em muito bom estado de conservação e revelam
um trabalho de grande qualidade com desenhos geométricos que eram formados com
“puxados”.
Os bordados herdados da Tia Helena que chegaram até nós, nomeadamente
toalhas e panos com monogramas, são prova de um requinte que parece estar em
contradição com a rudeza da vida dos lavradores. Talvez o respeito que sentimos
pelos nossos antepassados explique a estima que estes “bens” nos merecem,
conservando-os como se fossem um tesouro.
Muitas tradições que se mantiveram durante séculos, perderam-se com o
aparecimento de novas técnicas de fabrico e a evolução da sociedade. Por
exemplo, até meados do século XX, em todas as casas de aldeia se amassava semanalmente
a broa de milho cozida depois no forno de lenha. Assim acontecia na casa de Mataduços
e o forno de lenha continua a existir na cozinha velha, mas não é utilizado há muitas
dezenas de anos.
Lembro-me das desfolhadas, mas sem grandes pormenores. Juntava-se a
família e os amigos para desfolhar as espigas de milho que depois eram levadas
para a eira para secar e finalmente malhavam-se para as debulhar. A partir de
certa altura esta operação passou a ser feita pelas máquinas debulhadoras. As
vagens secas de feijão também se costumavam malhar com o objectivo de fazer soltar
os grãos. Quanto às vindimas guardo a imagem dos homens a pisarem as uvas no
lagar e pouco mais.
Já a matança do porco impressionava-me muitíssimo e a proibição de
assistir por ser criança adensava o mistério que a envolvia. Recordo com
bastante nitidez o guincho do porco que atravessava os ares naquelas manhãs de
Outono e a azáfama súbita que tomava conta de todos, homens e mulheres. Era um
corrupio de gente a correr de um lado para o outro, pois não havia mãos a medir
para ajudar, de acordo com a sua experiência, no que fosse preciso. Normalmente
na casa de Mataduços, cevavam-se dois porcos e portanto o trabalho era a
dobrar. Sangrar, tirar e arranjar as vísceras, ir lavar a tripas não são
tarefas para qualquer um. Os porcos eram pendurados em grandes ganchos fixos no
tecto da despensa (um verdadeiro frigorífico!) e assim ficavam até ao dia
seguinte. Sempre que chegava mais alguém a casa, era levado a admirar os
animais pendurados na despensa. E seguiam-se as exclamações que naturalmente
envaideciam os meus avós de Lisboa: “Que belos cevados! Ainda parecem maiores
que os do ano passado!” Entretanto confeccionavam-se os primeiros petiscos com
o que fora retirado do porco e os ajudantes naturalmente estavam convidados. Era
uma festa. Mas ainda havia muito trabalho pela frente que iria prolongar-se
pelos dias seguintes. Desmanchar o porco (tudo será aproveitado) bem como, por
exemplo, separar e temperar as partes destinadas a fazer os enchidos. Mas um
dos momentos mais esperados consistia na prova dos rojões fritos em banha
naqueles enormes tachos de cobre, que decoravam as prateleiras da cozinha,
sendo apenas usados nesta ocasião especial. Um manjar que era o orgulho dos
donos da casa e fazia a delícia de quem tinha a sorte de os saborear. Uma boa
parte do porco acabava na salgadeira (preservada até à actualidade) e, num
tempo em que não existia frigorífico, teria de durar até à matança do ano
seguinte.
As Pastoras no dia de Ano Novo e a festa de Nossa Senhora de Alumieira
na 2ª Feira de Páscoa eram os acontecimentos mais importantes do ano para as
pessoas da aldeia, que viviam intensamente aqueles dias, começando a preparar-se
para as festas com bastante antecedência. A avó Lena e irmãos, bem como os
primos, vestidos a rigor com um traje representando uma profissão do povo, participavam
todos os anos no desfile, levando uma oferenda “ao Menino Jesus” que depois
seria leiloada, na esperança de que fosse arrematada por um valor superior ao
de que todas as outras. Relativamente às festas de Nossa Senhora de Alumieira,
que culminavam com a procissão a percorrer, com grande solenidade, as ruas da
aldeia, lembro-me de ter ido vestida de “anjinho”, umas duas vezes talvez. Era
nesta altura que se comia a chanfana que em Mataduços todos chamavam
“frigideira” (carneiro assado no forno de lenha numa caçoila de barro preto). À
sobremesa não podia faltar a aletria e o arroz doce, artisticamente decorados
pela avó de Lisboa, com canela em pó. As travessas com o doce colocavam-se em
cima da cama de um dos quartos que funcionava como frigorífico. Na actualidade,
um grupo de pessoas, por amor à terra e com grande mérito, teima em manter viva
as tradições ligadas às comemorações das datas festivas da sua aldeia.
Quando os meus avós se encontravam de férias em Mataduços tanto eu
como os meus irmãos adorávamos passar uns dias com eles, principalmente por
podermos andar à vontade pelo pátio e pelo aido, acompanhar os trabalhos do campo
e ajudar a tratar da criação. Mas a vida na aldeia, para mim, tinha ainda
outros encantos, por exemplo, participar no ritual da ida à fonte. Costumávamos
ir à fonte do Crelvo com a minha avó ou a Felisbela. Levávamos o barril (de
barro, claro,) e seguíamos por um carreirinho, rodeado de vegetação, numa zona
em que não havia casas. Lamentavelmente esta fonte já não existe há bastante
tempo, uma consequência inevitável da construção de habitações naquele local.
Mais ou menos o mesmo destino sofreu o Senhorio, uma outra fonte, por onde agora
escorre apenas um fio de água, não potável. Ainda hoje sinto o sabor da água
conservada no barril, muito fresquinha! Actualmente, na cozinha velha, em cima
da velha cantareira, lá está o barril, como nos tempos em que o levavam à fonte.
Recordo-me perfeitamente das revigorantes gemadas que a avó preparava
para nós comermos ao lanche: a gema do ovo de uma das galinhas da criação, misturada
com um pouco de açúcar e uns bocadinhos de miolo de pão. Era delicioso e
acreditava-se que fazia tão bem que até curava a tuberculose!
Passar a noite em Mataduços, principalmente no Inverno, punha uma
pessoa à prova. O frio entranhava-se na roupa da cama que parecia molhada e nós
enroscávamo-nos sob o peso dos cobertores de papa, tentando aquecer os pés na
botija de grés cheia de água quente. O cheiro mais ou menos intenso a humidade
acentuava a sensação de frio. Como é habitual nas casas antigas desta zona, o
tortulho alastrava pelas paredes e tecto da sala e quartos. Só a cozinha
escapava a esta maldição devido à utilização da lareira. Mas a falta de
conforto não me assustava. Imaginava o meu futuro, muito feliz, a viver numa
quinta rodeada de toda a espécie de animais: patos e galinhas, porcos, vacas,
cavalos, etc…etc… Quem sabe se um dia…
ÁLBUM DE FOTOS ANTIGAS
2ª Feira de Páscoa (festa), a caminho da Missa do Dia...
À esquerda, o avô e a avó de Lisboa. (sem data)
Nas Pastoras, 1 de Janeiro de 1944.
A Avó Lena encontra-se em primeiro plano, à esquerda,
com um cesto no braço.
Dois belos cevados, Outubro de 1947




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