É na nossa casa de Aveiro que toda a família se reúne, para comemorar as datas importantes como o Natal e passar férias, juntando quatro gerações, a minha mãe (a avó Lena), os seus filhos, netos e bisnetos. Para a restante família e amigos de qualquer um de nós continua a ser um ponto de paragem obrigatório, quando se deslocam a Aveiro. É uma casa de portas abertas, onde por princípio se arranja sempre mais um lugar à mesa e uma cama para dormir durante a noite. Ao longo dos tempos a avó Lena tem merecidamente recebido provas de reconhecimento da sua hospitalidade, como missivas endereçadas pelos “hóspedes”, agradecendo a forma descontraída e generosa como foram acolhidos. Quando estamos juntos à mesa normalmente reina a boa disposição, brincamos e gozamos uns com os outros. Além disso se, por acaso, alguma iguaria é muito do nosso agrado, utiliza-se a táctica de começar a dizer mal, mas mesmo muito mal da comida, porque se ninguém comer, mais fica! E até existe um “Livro de Reclamações”, como em qualquer unidade hoteleira que se preze (!), colocado bem à vista de todos na casa de jantar. Com muito sentido de humor, alguns convivas responderam ao desafio lançado pelos anfitriões, explanando o motivo do seu desagrado. Agora é tão engraçado reler, por exemplo, as queixas apresentadas pelos netos, quando ainda eram crianças e adolescentes.
Voltando mais atrás, esta casa testemunhou e sofreu muito com as nossas traquinices de crianças (principalmente dos dois mais velhos). Imaginem os nossos sapatinhos a voar pelas janelas para grande desespero da avó Lena e, melhor ainda, uma vez arremessámos paus (daqueles normalmente utilizados para ajustar o tapete aos degraus das escadas) através da janela do sótão estilhaçando violentamente os vidros que recobriam o espaço entre os dois prédios. E que dizer das escavações que fizemos nas paredes do sótão, julgo que com a intenção de encontrar algum tesouro! Mas há mais, muito mais para contar. Por exemplo, amestrávamos galinhas obrigando-as a fazer equilíbrio em cima das cordas da roupa. As coitadas mal nos viam aninhavam-se logo. Também fazíamos corridas de caracóis (não me perguntem como!).
A casa é grande e as divisões espaçosas. Os nossos pais, muito liberais nesse aspecto, deixavam-nos circular à vontade, inclusivamente andar de triciclo e formar comboios com as cadeiras que arrastávamos pelo corredor. Quando saíam à noite era um forrobodó: saltávamos em cima dos colchões das camas que serviam de trampolim e treinávamos a pontaria com as almofadas tentando acertar nas cabeças uns dos outros. Tínhamos a sorte de poder contar com a cumplicidade da empregada, nesse tempo interna que, enfim, era apenas um pouco mais velha do que nós.
Quando adolescentes púnhamos a música (discos em vinil, normalmente um long play) com o volume do som tão alto que se ouvia do outro lado da avenida. O meu pai sentia um grande orgulho na sua aparelhagem, que pela sua qualidade (as colunas eram enormes, o gira-disco com uma agulha especial), suscitava a admiração dos nossos amigos.
Não foram muitos, mas ficaram famosos os bailes que se realizaram na nossa casa, em data de aniversários, proporcionando uma aproximação rapazes/raparigas que, naquela época de imensas convenções, viviam em mundos completamente separados. A exigente lista de convidados contemplava as primas e algumas amigas e, quanto a cavalheiros, os primos e os amigos dos primos e dos irmãos. Preparava-se um lanche onde não faltavam as especialidades da casa e até se fazia cup! Chegado o momento tão aguardado de dar início ao baile, colocava-se o disco escolhido no gira-disco e as raparigas esperavam, com o coração aos pulos, que algum rapaz simpático viesse pedir para dançar, mais ou menos assim: “A menina dança?”. A avó Lena era uma espécie de mentora destes encontros, pois compreendia a importância de educar os jovens com uma certa abertura, possivelmente devido à forma como ela própria fora criada e vivera a sua juventude. Antes do 25 de Abril, estes bailes eram uma lufada de ar fresco que contrastava com o ambiente cinzento e pesado que nos envolvia, condicionando de tal modo o nosso comportamento em sociedade que, normalmente, não sabíamos como conversar com o sexo oposto e vivíamos numa insatisfação permanente, miudinha e de causa desconhecida, pelo menos para mim, até uns anos depois.
Entretanto crescemos, tornámo-nos adultos e cada um foi à sua vida… mas a ligação à casa da nossa infância e juventude manteve-se muito forte e a sua importância para nós não diminuiu com o tempo.
Em Outubro de 1979, a Teresinha e o Militão casaram-se nesta casa. Seguiu-se a “boda”, com as famílias do noivo e da noiva em alegre convívio saboreando o almoço e, como não podia deixar de ser, não faltaram os brindes à felicidade dos “pombinhos”. Por fim, lembro-me perfeitamente da quantidade impressionante de doces colocados em cima da mesa e, principalmente, do bolo de nozes, por ter sido o que me soube melhor em toda a minha vida. A festa, pelo menos para alguns, prolongou-se pela noite fora e cometeram-se algumas loucuras, digamos que exagerámos um bocadinho no nosso entusiasmo. Refiro-me concretamente ao nosso comportamento no Forte da Barra, para onde fomos passear na companhia do Tio Isaías, que alinhava sempre com os mais novos para a paródia. Algumas fotos testemunham esses momentos inesquecíveis de alegria do grupo (incluindo os noivos) junto de uma paragem de autocarros.
Em Setembro de 2011, o Pedro (o neto primogénito) e a Mafalda também escolherem Aveiro para dar o nó e a “boda”, como não podia deixar de ser, realizou-se nesta casa. Muito cool, como diz a malta jovem. Mas o mais divertido foi o inesperado discurso de agradecimento dos noivos em que, com grande sentido de humor, fizeram referência ao apoio que receberam de cada um dos membros da família nas diferentes fases da vida. Sem dúvida, estes momentos terão sido dos mais hilariantes passados nesta casa.
Em todas as ocasiões importantes é nesta casa que gostamos de nos reunir. No Natal, todos marcam presença e agora com as crianças (bisnetos) o “Menino” renasceu. A Teté (neta mais nova) ofereceu uns versos à avó Lena, em 2006, que retratam bem o espírito de Natal para nós:
Natal, casa cheia, animação, alegria…
Assim é o Natal cá em casa!!
Mesmo que passemos o ano todo separados
No Natal juntamo-nos…
Contamos as nossas últimas aventuras,
Brincamos uns com os outros,
Discutimos temas actuais
E falamos dos tempos de outrora.
Ao cheiro característico da casa,
Junta-se o aroma da comida e dos doces!
O barulho das tábuas a ranger
E as “luzes” no chão
São únicos desta casa
Que já viu tanta gente crescer!!
E aquele nervosismo miudinho
Que nos cresce depois da ceia de Natal,
Porque ainda falta fazer embrulhos,
Ou encontrar as palavras certas
Para um postal ou uma brincadeira,
Ou porque nos faltam os laços
Ou a fita-cola e a tesoura…
Ora o Natal não é prendas
Mas sim a alegria dentro de nós…
Porque as prendas chegam sempre
Atrasadas aos sapatinhos,
(Que normalmente são todos da Avó)
E têm sempre um papelzinho
Com o nome de cada um
Escrito à última da hora…
Aqui, o Natal nunca começa à meia-noite!!
Começa com o valor que damos à palavra FAMÍLIA!!
Com os bisnetos, iniciou-se um novo ciclo. Voltaram as correrias pela casa, a algazarra, os gritos de alegria e, de vez em quando, um pequeno desentendimento exigindo a intervenção de um adulto.
Até há pouco tempo a fachada do prédio onde se situa a nossa fracção estava muito danificada, com ar decadente. Felizmente fizeram-se obras respeitando as características originais da construção e a sua beleza, que anteriormente passava despercebida, ficou à vista de todos.
Falta dizer que a avó Lena, para nós, é uma espécie de castelã e esta casa o castelo encantado de todas as crianças que por aqui têm passado.
Traseiras da casa
Casamento da Teresinha e do Militão, Out. 1979
Casamento do Pedro e Mafalda (2011); na hora dos discursos
Natal 1990; o que será?!
Natal 1992
Uau! Que sorte! Um baú cheio de moedas de oiro!
Conseguem ver?
Natal 2005
Surpresa! Um cão de companhia que não dá trabalho nenhum.
Natal 2014; as melhores prendas do mundo!
Natal 2014; afogada em prendas!!!
Natal 2015; e há mais prendas, muito mais!
ÁLBUM DA CASA DE AVEIRO
Fachada principal
Traseiras da casa
Casamento da Teresinha e do Militão, Out. 1979
Casamento do Pedro e Mafalda (2011); na hora dos discursos
Natal 1992
Uau! Que sorte! Um baú cheio de moedas de oiro!
Conseguem ver?
Natal 2005
Surpresa! Um cão de companhia que não dá trabalho nenhum.
Natal 2014; as melhores prendas do mundo!
Natal 2014; afogada em prendas!!!
Natal 2015; e há mais prendas, muito mais!




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