domingo, 7 de janeiro de 2018

Lisboa, anos 60



Em 1968 entrei na Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa para tirar o Curso de Filologia Românica. Em vez de ir para o Porto ou Coimbra como as minhas colegas de liceu, vim para Lisboa porque tinha a avó Ermelinda para me acolher e, diziam os entendidos, o ensino na capital estava mais actualizado e o ambiente era melhor. Na verdade, naquele tempo, (antes da globalização!) os lisboetas distinguiam-se dos outros portugueses na maneira de pensar, de vestir e até de falar. O que podia dar origem talvez a alguma discriminação…Na fase inicial de adaptação pude contar com o apoio da Carmen Rosa que me ensinou o indispensável para sobreviver. E, apesar da ditadura, sentia-me livre pela primeira vez na vida, muito curiosa e aberta em relação a tudo o que fosse novidade. 


O ambiente na Faculdade era, de facto, fantástico. Jovens assistentes como Eduardo Prado Coelho, Osório Mateus e Manuel Gusmão, nas aulas práticas, revolucionavam os o ensino com métodos e conteúdos novos e, não menos importante, davam a conhecer os autores portugueses mais inovadores.


Além de ler muitos livros que me emprestavam, tentava comprar as novidades literárias e as obras dos meus autores preferidos (para juntar o dinheiro necessário à compra ia a pé para a faculdade). Parece incrível, mas havia muitos autores, que viam os seus livros censurados e apreendidos pela PIDE, e muitas vezes nem era por motivos políticos, mas por supostamente atentarem contra a moral e os bons costumes. Vem a propósito referir que o Fernando entretanto também viera estudar para Lisboa e tinha um jeito especial para adquirir livros retirados do mercado, incluindo os de divulgação de ideologias como o socialismo e o comunismo. Quase todos nós, jovens estudantes, sonhávamos e acreditávamos que era possível construir uma sociedade melhor e mais justa, embora apenas alguns se empenhassem de forma activa em iniciativas de contestação ao regime, organizadas pelos partidos da oposição. 



Estávamos em plena “Primavera Marcelista”, mas por ironia, a repressão exercida sobre os estudantes aumentou. Além das agressões, prisões, o impensável aconteceu com a contratação de “gorilas” para vigiar os estudantes dentro da escola, a invasão da faculdade de Letras pela polícia de choque e depois com o assassinato de Ribeiro Sanches por um PIDE num anfiteatro do ISCEF. Participei em algumas reuniões promovidas pelas associações de estudantes e recordo especialmente uma RIA, à noite, em Medicina (o Fernando também estava presente) em que o ambiente era de grande tensão e de repente alguém gritou: ”Vem aí a polícia!” Desatámos a fugir num desespero, tentando encontrar um local onde nos escondermos. Eu até perdi um sapato! E no final da reunião (de novo com sapato) saímos quase um a um, de forma disfarçada, pelos atalhos à volta do Hospital de Santa Maria, pois sabia-se que a polícia andava à procura dos “comunistas” para os prender. 

A oferta cultural desta Lisboa dos finais da década de 60 era bastante interessante, conseguia-se quase “fazer omolette sem ovos”. Nas sessões clássicas do Cinema Império, as pessoas da minha geração tiveram a oportunidade de ver os filmes mais antigos dos maiores cineastas estrangeiros. E quanto ao teatro, apesar da censura, diversas companhias ofereciam a todos os interessados uma programação de “luxo”: bons textos, bem encenados e representados, de dramaturgos portugueses, mas também de autores estrangeiros, incluindo os de vanguarda. 



Nessa época, a Fundação Calouste Gulbenkian desempenhava o papel de Ministério da Cultura, apoiando inúmeras iniciativas no âmbito da cultura e das artes, sem qualquer tipo de discriminação. Por exemplo muitos artistas plásticos portugueses beneficiaram da concessão de bolsas no estrangeiro que lhes permitiram uma evolução difícil de imaginar sem esse apoio. O edifício sede da Fundação Calouste Gulbenkian, inaugurado em 1969, com o Grande Auditório, será o palco perfeito para a exibição do Ballet Gulbenkian e da Orquestra que até aí não tinham casa própria. Os lisboetas, incluindo é claro, os estudantes, passaram a ter acesso, com regularidade, a espectáculos de nível internacional a preços reduzidos.


O Fernando e eu, como se diz agora, andávamos quase sempre na mesma onda, tínhamos amigos comuns. Em casa ouvíamos muita, muita música. O gira-disco estava quase sempre a trabalhar. Púnhamos música anglo-saxónica como os Beatles, Otis Redding, Janis Joplin, Simon and Garfunkel, Jimi Hendrix e muitos outros. De música francesa essencialmente Jacques Brel. De portuguesa estavam na moda as baladas, recordo em especial Zeca Afonso e Luís Cília. Entretanto em 1971 chegaram a Portugal os álbuns de dois cantores, exilados em França, que renovaram completamente a canção nacional a nível da composição e das letras: “Mudam-se os tempos, mudam-se as vontades” de José Mário Branco e “Sobreviventes” de Sérgio Godinho. Numa espécie de premonição, Sérgio Godinho cantava: “Aprende a nadar, companheiro aprende a nadar, companheiro. Que a maré se vai levantar que a maré se vai levantar. Que a liberdade está a passar por aqui que a liberdade está a passar por aqui… “



A música funcionava normalmente como aquecimento, seguia-se uma noitada que, em vez de ser dedicada aos estudos, era sinónimo de borga. Em pouco tempo os nossos conhecimentos pessoais alargaram-se e passámos a funcionar em grupo. Deambulávamos pelas ruas numa pura manifestação de juventude e alegria, poupava-se para poder fazer de vez quando uma extravagância “porque hoje pode ser o nosso último dia” e íamos por exemplo cear um prego à Portugália. Normalmente havia sempre reclamações porque pedíamos para servirem as doses de batatas fritas separadas e mandavam as batatas todas juntas numa única travessa. Nós achávamos que assim nos traziam menos quantidade, além de se colocar a questão de uma partilha justa para todos. Um momento muito aguardado era o da sobremesa para ver quantos pudins flan é que o Fernando era capaz de devorar naquela noite! Pelo que me lembro chegava aos 7 ou 8! Às vezes íamos comer um combinado (o mais baratinho) a algum snack-bar, uma novidade na Lisboa daquela época. Recordo O Galeto ainda hoje famoso, o snack do Apolo 70, o do Cinema Londres e o do Imaviz. Lisboa era uma cidade pataca e segura, os cafés e restaurantes fechavam bastante tarde, tirava-se o curso a estudar nos cafés. 



A casa da avó era como se fosse a sede do grupo e foi no café que ficava em frente, A Flor do Império, que conhecemos o Carlos e a Luísa e outros elementos de que entretanto perdemos o contacto. Antes do 25 de Abril todos se sentiam unidos pelo mesmo ideal, depois da revolução surgiram os desentendimentos por questões partidárias e o grupo desfez-se.




ÁLBUM DE LISBOA, ANOS 60


Reitoria da Universidade de Lisboa



Cinema Império e Cine-Teatro Estúdio



Autocarro típico dessa época



Edifício sede da Fundação Calouste Gulbenkian



Cervejaria Portugália



Capa do álbum "Sobreviventes" de Sérgio Godinho

1 comentário:

  1. Parabéns. Ao lê-lo, facilmente nos sentimos nessa Lisboa. Aguardamos pelo texto dos anos 70!

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