A Federação Regional dos Sindicatos dos Empregados de
Escritório do Sul e Ilhas Adjacentes publicava um boletim “O Escritório”,
revista trimestral de divulgação técnica e formação profissional. Era uma
publicação que se colocava a par das melhores revistas técnicas estrangeiras da
especialidade, com uma tiragem de trinta e um mil exemplares, distribuída
gratuitamente aos sócios dos 13 sindicatos de empregados de escritório
federados e vendida ao público ao preço de 7$50 ou por assinatura anual de 4
números por 24$00, preço um pouco elevado para a altura. O seu subdirector, Dr.
Isaías Gomes Gautier, fora o seu principal obreiro a ela dedicando todo o
entusiasmo, dinamismo e espírito empreendedor que punha em tudo a que se
dedicava. Foi seu primeiro chefe de redacção o meu amigo Nuno de Morais que,
por motivos profissionais, teve de abandonar o lugar no fim do seu primeiro ano
de existência. Fui então convidado para ocupar aquele lugar o que aceitei com a
condição de o boletim ser exclusivamente técnico e se abstrair de quaisquer
ligações governativas. Durante três anos, eu e o Dr. Gautier trabalhávamos,
depois das horas de serviço, até bastante tarde na elaboração do boletim,
trocando ideias sobre os artigos e a composição gráfica, opiniões por vezes
diferentes mas sempre coincidentes quanto ao seu conteúdo. Após os serões de
trabalho, terminávamos sempre numa cervejaria para comer qualquer coisa e beber
umas canecas. Aí, as nossas discussões eram acaloradas pois o Gautier era
admirador de Salazar e eu não era. Levava horas a tentar convencer-me das
virtudes do regime salazarista e eu a contrariá-lo mostrando todo o mal da
ditadura em que vivíamos. No inicio do quinto ano de existência do boletim e
depois de três anos a trabalharmos em comum o Dr. Gautier, devido a ter ocupado
um cargo directivo na TAP, foi obrigado, por indisponibilidade de tempo, a
deixar o cargo que ali desempenhava. Foi substitui-lo alguém com quem pensei
que iríamos trabalhar sem dificuldades até porque, nas várias conversas que
havíamos tido anteriormente, se tinha sempre mostrado crítico ao regime. Puro
engano meu. A tendência era para, sem deixar a divulgação técnica, passar a ser
também um órgão de propaganda governamental recheado de palavras de gratidão ao
ministro das corporações e previdência social. O nº. 17 de “O Escritório”,
primeiro da nova direcção, já não me tinha como chefe de redacção embora,
indevidamente, o meu nome ainda lá figurasse. Tinha pedido a demissão por não
concordar com a inserção de uma frase de Salazar na contracapa da revista e dos
louvores ao ministro. Ironia do destino. Com um admirador de Salazar consegui
trabalhar durante todo aquele tempo; com alguém que se dizia crítico ao regime
não foi possível porque não passava de um oportunista. Mais tarde, falando com
o Dr. Gautier sobre isto, ele disse-me: “Agora já te posso dizer. Quando
informámos o ministério das corporações que ias ocupar aquele lugar, o
ministério informou que não eras “persona grata” ao governo. Guardei a carta na
gaveta e ocupaste o lugar”. Mais tarde fui também para a TAP e trabalhámos bastante
juntos pois ele era o Presidente do Grupo Cultural e Desportivo da TAP. Todas
as minhas iniciativas tiveram sempre a sua colaboração e não regateava meios
para que elas se pudessem concretizar. Foi assim com o rali, com o grupo de
teatro, com a equipa de tiro, com o concurso de pesca desportiva, com as festas
de Natal para os funcionários da companhia. Sempre tive o seu apoio e
colaboração. Nunca esqueço uma frase que me dizia sempre: “ Meu filho, se o que
fizeres for perfeito e grande ninguém pergunta quanto custou. Se fizeres uma
merda reclamam um tostão que seja. Apesar da sua admiração a Salazar nunca
alinhou com o fascismo nem com os seus métodos. Foi um verdadeiro amigo que
recordo com muita saudade.
PUBLICADA POR ARMANDO DE LACERDA À(S) 03:37 SEM COMENTÁRIOS:
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