Em
finais da década de 60, começaram a deixar-nos ficar sozinhos na praia da Barra,
de vez em quando, durante a tarde. O grupo base era formado pelos primos de
Aveiro: o meu irmão Fernando, a Teresinha, o Nuno, a Belita e eu; os filhos da
prima Maria (o Rui, a Ermelinda, o Tomané e a Gracinha), os filhos da prima
Ermelinda (a Carmen Rosa e o André) e os filhos da prima Isaura (o Vitinho e o
seu irmão Joãozinho) Mas, em Agosto, juntavam-se a nós os que viviam na capital
e arredores, os filhos do primo Maia (Rosarinho e António Manuel), a prima Lena
de Vila Franca e, por vezes, uns primos do Barreiro (o Nelo e o Jorge) e o primo
Isaías que vivia com os pais nos EUA. Não raro chegavam amigos que passavam um
bocado da tarde connosco. Deitávamo-nos em círculo na areia a apanhar sol ou
abrigávamo-nos do vento debaixo do guarda-sol, a conversar, a gozar uns com os
outros, a rir e a divagar.
É claro que os de Aveiro costumavam ir todos
os dias para a Barra, o nevoeiro tão habitual nesta zona não nos assustava,
normalmente à tarde aparecia o sol. Mas quando se previam aguaceiros ou uma daquelas
terríveis nortadas com areia a voar por todos os lados e a entrar para os olhos,
não havia nada a fazer, o melhor era ficar em casa e arranjar outro programa. A
situação dos primos que apenas vinham cá passar um mês era bem diferente, nem
sempre podiam ir à praia, para ficar mais tempo com a família. E se uns estavam
quase na despedida, outros preparavam-se para começar as férias. No nosso grupo
a porta estava sempre aberta…
E um
belo dia de Julho de 1968, uma rapariga francesa natural de Montpellier, com a
qual estabelecera um intercâmbio para aperfeiçoar a língua francesa chegou a
Aveiro para passar cerca de 15 dias na nossa parvónia. Na verdade, a Marie
Pierre frequentava um colégio onde a língua portuguesa era disciplina de opção
e pretendia aprender a falar um pouco melhor português. Claro que ficou em
nossa casa e ia connosco à Barra. A Marie Pierre era alta, de porte atlético,
vestia-se de forma, para nós, muito moderna, os vestidos curtos e com decotes e
até usava um mini biquíni! Nessa época ainda era bastante raro ver uma mulher
de biquíni nas nossas praias. Apesar da diferença de mentalidades, a Marie
Pierre adaptou-se muito bem, porque havia valores e interesses comuns e para
começar também adorava fazer vida de praia, bronzear-se e tomar banho de mar. E
voltou ainda um outro ano a Aveiro, para passar mais uns dias de férias
connosco.
No
ano seguinte, em 1969, ao abrigo do programa American Field Service, recebemos
em nossa casa uma americana, vinda directamente de Nova York. A Stacey não
apreciava a praia e evitava apanhar sol, porque, segundo dizia, provocava
cancro, algo que na altura para nós era novidade e ninguém levava a sério. Nesse
tempo, além da praia não havia mesmo mais nada para fazer, por isso a Stacey,
habituada a um estilo de vida completamente diferente, sentiu dificuldade em se
adaptar. Há dois factos associados à estadia da Stacey em Aveiro que jamais
esquecerei: a transmissão do passeio lunar dos primeiros astronautas a aterrar
na Lua, no dia 21 de Julho e a Polaroid que nos ofereceu. Desconhecíamos a
existência deste tipo de máquina fotográfica que permite tirar/revelar fotos
instantâneamente. Por isso ficámos encantados com a prenda (parecia magia!) e
tirámos muitas fotos que se mantêm com uma qualidade razoável.
Em
Agosto de 1971, visitou-nos uma família francesa com quatro filhos, o Bertrand,
a Véronique, a Odile e o Hubert que passaram vários dias connosco na Barra. Ao
que parece, em especial a Odile, deu a volta à cabeça de vários rapazes! Mantivemos
contacto com esta família, quer directamente através dos filhos que visitaram
noutras ocasiões o nosso país, quer através de troca de correspondência, até há
relativamente pouco tempo.
Lembram-se
daquela bola Nívea, azul, enorme, que se avistava a grande distância, no cimo
de uma estrutura, colocada habitualmente nas praias vigiadas? E, da música
popular que ouvíamos (raramente ao nosso gosto), propagada através da
instalação sonora, o som distorcido e altíssimo, intervalada de publicidade?
Mas nada nos perturbava. Sempre cheios de energia e exuberantes, como é próprio
dos adolescentes, tanto podiam encontrar-nos muito entretidos a conversar como
de repente nos levantávamos para jogar ao ringue ou voleibol ou então corríamos
em direcção ao mar para mais um banho. E os nossos convidados estrangeiros, à
excepção da Stacey, integraram-se perfeitamente no grupo e alinhavam nos nossos
programas. Por vezes íamos passear até à ponta do paredão e descíamos para a
zona das pedras que o protegem. Em alturas de preia-mar, com o mar agitado, as
ondas rebentavam contra as pedras, inundando tudo e projectando água a grande
altura. Belo mas muito perigoso. Nós divertíamo-nos imenso a apanhar banho de
chuveiro dessas ondas e a fugir para não sermos arrastados para o mar. Acontece
que o chão se encontrava coberto de algas e corríamos o risco de escorregar,
mas nós não pensávamos nessas coisas e achávamos tudo isto muito emocionante.
Na baixa-mar o desafio era outro. Sempre na brincadeira, munidos de um canivete
ou de uma faca, competíamos para ver quem apanhava mais e maiores burriés e
mexilhão nas rochas. Nós, os de Aveiro, não dávamos grande valor a este tipo de
marisco. Mas os outros adoravam apanhá-lo e comê-lo e nós não nos importávamos
nada de os acompanhar! Uma vez, o primo Maia convidou-nos para uma mariscada em
sua casa que ficou célebre porque quase todos os convivas ficaram de ligeirinha
e das fortes! Segundo se dizia e cria não se deve comer marisco nos meses sem
“r” no nome. Pagámos caro por este acto de desobediência à tradição!
Recordo-me
também daquelas tardes em que depois da merenda (o nosso almoço!), costumávamos
ir beber uma Schweppes, Laranjina C ou Bussaco (nesses recuados tempos ainda
tinham chegado a nosso Portugal refrigerantes como o Ice Tea e muito menos a
Coca Cola que, aliás, era proibida!) ou comer um gelado na esplanada de um café
do outro lado da rua. Quando estava bom tempo, ficávamos a conversar sentados
ao sol na agora chamada hora do cancro para nos bronzearmos. Foi assim, sem dar
quase por nada, que apanhei uns valentes escaldões.
O
tempo ia decorrendo sem sobressaltos, com muita praia num ambiente de grande
camaradagem. Queríamos aproveitar ao máximo a oportunidade de convívio entre
rapazes e raparigas (o ensino não era misto) e sentíamo-nos livres (a liberdade
possível, naquela época!). Não pensávamos no futuro, estávamos apenas focados
no nosso pequeno mundo, o único que conhecíamos. Com os nossos amigos
estrangeiros é que começámos a perceber o que era preconceito e a reparar mais no
que se passava à nossa volta.
A partir de 1970, para os mais velhos, com a ida para a universidade, começou a ser cada vez mais difícil frequentar a praia da Barra. Uns porque iam passar as férias ao estrangeiro, outros porque tinham de estudar ou simplesmente fizeram novos amigos e habituaram-se a praias de águas mais quentes, etc… Tudo mudou à nossa volta. E nós também…até certo ponto!
A partir de 1970, para os mais velhos, com a ida para a universidade, começou a ser cada vez mais difícil frequentar a praia da Barra. Uns porque iam passar as férias ao estrangeiro, outros porque tinham de estudar ou simplesmente fizeram novos amigos e habituaram-se a praias de águas mais quentes, etc… Tudo mudou à nossa volta. E nós também…até certo ponto!
ÁLBUM DA BARRA




Sem comentários:
Enviar um comentário