domingo, 9 de maio de 2021


Após diversos adiamentos devido à pandemia, a apresentação do livro do Fernando "O Municipalismo entre os séculos XIV e XVIII sob o olhar dos Acordos da Câmara de Aveiro de 1555-1556" foi integrada nas comemorações do feriado municipal de Aveiro e realizou-se no dia 7 de Maio. A nossa prima Lena de Vila Franca criou este video que adorei e imediatamente lhe pedi autorização para o  publicar neste blog dedicado à família. É um  documento que vai ficar para sempre aliado a este dia em que mais uma vez  a união da nossa família ficou bem patente. Além das belas fotos, os pequenos textos que acrescentou, os destaques, o enquadramento, a organização das sequências, está tudo, tudo maravilhoso e revela a sua enorme sensibilidade. Obrigada, Lena!

quinta-feira, 25 de julho de 2019

Férias grandes na Barra


Em finais da década de 60, começaram a deixar-nos ficar sozinhos na praia da Barra, de vez em quando, durante a tarde. O grupo base era formado pelos primos de Aveiro: o meu irmão Fernando, a Teresinha, o Nuno, a Belita e eu; os filhos da prima Maria (o Rui, a Ermelinda, o Tomané e a Gracinha), os filhos da prima Ermelinda (a Carmen Rosa e o André) e os filhos da prima Isaura (o Vitinho e o seu irmão Joãozinho) Mas, em Agosto, juntavam-se a nós os que viviam na capital e arredores, os filhos do primo Maia (Rosarinho e António Manuel), a prima Lena de Vila Franca e, por vezes, uns primos do Barreiro (o Nelo e o Jorge) e o primo Isaías que vivia com os pais nos EUA. Não raro chegavam amigos que passavam um bocado da tarde connosco. Deitávamo-nos em círculo na areia a apanhar sol ou abrigávamo-nos do vento debaixo do guarda-sol, a conversar, a gozar uns com os outros, a rir e a divagar.
 É claro que os de Aveiro costumavam ir todos os dias para a Barra, o nevoeiro tão habitual nesta zona não nos assustava, normalmente à tarde aparecia o sol. Mas quando se previam aguaceiros ou uma daquelas terríveis nortadas com areia a voar por todos os lados e a entrar para os olhos, não havia nada a fazer, o melhor era ficar em casa e arranjar outro programa. A situação dos primos que apenas vinham cá passar um mês era bem diferente, nem sempre podiam ir à praia, para ficar mais tempo com a família. E se uns estavam quase na despedida, outros preparavam-se para começar as férias. No nosso grupo a porta estava sempre aberta…
E um belo dia de Julho de 1968, uma rapariga francesa natural de Montpellier, com a qual estabelecera um intercâmbio para aperfeiçoar a língua francesa chegou a Aveiro para passar cerca de 15 dias na nossa parvónia. Na verdade, a Marie Pierre frequentava um colégio onde a língua portuguesa era disciplina de opção e pretendia aprender a falar um pouco melhor português. Claro que ficou em nossa casa e ia connosco à Barra. A Marie Pierre era alta, de porte atlético, vestia-se de forma, para nós, muito moderna, os vestidos curtos e com decotes e até usava um mini biquíni! Nessa época ainda era bastante raro ver uma mulher de biquíni nas nossas praias. Apesar da diferença de mentalidades, a Marie Pierre adaptou-se muito bem, porque havia valores e interesses comuns e para começar também adorava fazer vida de praia, bronzear-se e tomar banho de mar. E voltou ainda um outro ano a Aveiro, para passar mais uns dias de férias connosco.
No ano seguinte, em 1969, ao abrigo do programa American Field Service, recebemos em nossa casa uma americana, vinda directamente de Nova York. A Stacey não apreciava a praia e evitava apanhar sol, porque, segundo dizia, provocava cancro, algo que na altura para nós era novidade e ninguém levava a sério. Nesse tempo, além da praia não havia mesmo mais nada para fazer, por isso a Stacey, habituada a um estilo de vida completamente diferente, sentiu dificuldade em se adaptar. Há dois factos associados à estadia da Stacey em Aveiro que jamais esquecerei: a transmissão do passeio lunar dos primeiros astronautas a aterrar na Lua, no dia 21 de Julho e a Polaroid que nos ofereceu. Desconhecíamos a existência deste tipo de máquina fotográfica que permite tirar/revelar fotos instantâneamente. Por isso ficámos encantados com a prenda (parecia magia!) e tirámos muitas fotos que se mantêm com uma qualidade razoável.
Em Agosto de 1971, visitou-nos uma família francesa com quatro filhos, o Bertrand, a Véronique, a Odile e o Hubert que passaram vários dias connosco na Barra. Ao que parece, em especial a Odile, deu a volta à cabeça de vários rapazes! Mantivemos contacto com esta família, quer directamente através dos filhos que visitaram noutras ocasiões o nosso país, quer através de troca de correspondência, até há relativamente pouco tempo.
Lembram-se daquela bola Nívea, azul, enorme, que se avistava a grande distância, no cimo de uma estrutura, colocada habitualmente nas praias vigiadas? E, da música popular que ouvíamos (raramente ao nosso gosto), propagada através da instalação sonora, o som distorcido e altíssimo, intervalada de publicidade? Mas nada nos perturbava. Sempre cheios de energia e exuberantes, como é próprio dos adolescentes, tanto podiam encontrar-nos muito entretidos a conversar como de repente nos levantávamos para jogar ao ringue ou voleibol ou então corríamos em direcção ao mar para mais um banho. E os nossos convidados estrangeiros, à excepção da Stacey, integraram-se perfeitamente no grupo e alinhavam nos nossos programas. Por vezes íamos passear até à ponta do paredão e descíamos para a zona das pedras que o protegem. Em alturas de preia-mar, com o mar agitado, as ondas rebentavam contra as pedras, inundando tudo e projectando água a grande altura. Belo mas muito perigoso. Nós divertíamo-nos imenso a apanhar banho de chuveiro dessas ondas e a fugir para não sermos arrastados para o mar. Acontece que o chão se encontrava coberto de algas e corríamos o risco de escorregar, mas nós não pensávamos nessas coisas e achávamos tudo isto muito emocionante. Na baixa-mar o desafio era outro. Sempre na brincadeira, munidos de um canivete ou de uma faca, competíamos para ver quem apanhava mais e maiores burriés e mexilhão nas rochas. Nós, os de Aveiro, não dávamos grande valor a este tipo de marisco. Mas os outros adoravam apanhá-lo e comê-lo e nós não nos importávamos nada de os acompanhar! Uma vez, o primo Maia convidou-nos para uma mariscada em sua casa que ficou célebre porque quase todos os convivas ficaram de ligeirinha e das fortes! Segundo se dizia e cria não se deve comer marisco nos meses sem “r” no nome. Pagámos caro por este acto de desobediência à tradição!
Recordo-me também daquelas tardes em que depois da merenda (o nosso almoço!), costumávamos ir beber uma Schweppes, Laranjina C ou Bussaco (nesses recuados tempos ainda tinham chegado a nosso Portugal refrigerantes como o Ice Tea e muito menos a Coca Cola que, aliás, era proibida!) ou comer um gelado na esplanada de um café do outro lado da rua. Quando estava bom tempo, ficávamos a conversar sentados ao sol na agora chamada hora do cancro para nos bronzearmos. Foi assim, sem dar quase por nada, que apanhei uns valentes escaldões.
O tempo ia decorrendo sem sobressaltos, com muita praia num ambiente de grande camaradagem. Queríamos aproveitar ao máximo a oportunidade de convívio entre rapazes e raparigas (o ensino não era misto) e sentíamo-nos livres (a liberdade possível, naquela época!). Não pensávamos no futuro, estávamos apenas focados no nosso pequeno mundo, o único que conhecíamos. Com os nossos amigos estrangeiros é que começámos a perceber o que era preconceito e a reparar mais no que se passava à nossa volta.
A partir de 1970, para os mais velhos, com a ida para a universidade, começou a ser cada vez mais difícil frequentar a praia da Barra. Uns porque iam passar as férias ao estrangeiro, outros porque tinham de estudar ou simplesmente fizeram novos amigos e habituaram-se a praias de águas mais quentes, etc… Tudo mudou à nossa volta. E nós também…até certo ponto!





ÁLBUM DA BARRA



A Marie Pierre muito preocupada com o penteado!




Ainda a Marie Pierre  connosco na praia (a Lena, o Nuno, o Fernando e mais atrás a Belita).



A Stacey com a Teresinha, o Nuno e a Lena.


Junto da bola Nívea com os franceses.
Sentados na areia, da esquerda para a direita:Véronique, Nuno, Odile, Lena, Teresinha, Belita e Gracinha.



domingo, 8 de abril de 2018

Texto da net dedicado ao nosso tio Isaías


A Federação Regional dos Sindicatos dos Empregados de Escritório do Sul e Ilhas Adjacentes publicava um boletim “O Escritório”, revista trimestral de divulgação técnica e formação profissional. Era uma publicação que se colocava a par das melhores revistas técnicas estrangeiras da especialidade, com uma tiragem de trinta e um mil exemplares, distribuída gratuitamente aos sócios dos 13 sindicatos de empregados de escritório federados e vendida ao público ao preço de 7$50 ou por assinatura anual de 4 números por 24$00, preço um pouco elevado para a altura. O seu subdirector, Dr. Isaías Gomes Gautier, fora o seu principal obreiro a ela dedicando todo o entusiasmo, dinamismo e espírito empreendedor que punha em tudo a que se dedicava. Foi seu primeiro chefe de redacção o meu amigo Nuno de Morais que, por motivos profissionais, teve de abandonar o lugar no fim do seu primeiro ano de existência. Fui então convidado para ocupar aquele lugar o que aceitei com a condição de o boletim ser exclusivamente técnico e se abstrair de quaisquer ligações governativas. Durante três anos, eu e o Dr. Gautier trabalhávamos, depois das horas de serviço, até bastante tarde na elaboração do boletim, trocando ideias sobre os artigos e a composição gráfica, opiniões por vezes diferentes mas sempre coincidentes quanto ao seu conteúdo. Após os serões de trabalho, terminávamos sempre numa cervejaria para comer qualquer coisa e beber umas canecas. Aí, as nossas discussões eram acaloradas pois o Gautier era admirador de Salazar e eu não era. Levava horas a tentar convencer-me das virtudes do regime salazarista e eu a contrariá-lo mostrando todo o mal da ditadura em que vivíamos. No inicio do quinto ano de existência do boletim e depois de três anos a trabalharmos em comum o Dr. Gautier, devido a ter ocupado um cargo directivo na TAP, foi obrigado, por indisponibilidade de tempo, a deixar o cargo que ali desempenhava. Foi substitui-lo alguém com quem pensei que iríamos trabalhar sem dificuldades até porque, nas várias conversas que havíamos tido anteriormente, se tinha sempre mostrado crítico ao regime. Puro engano meu. A tendência era para, sem deixar a divulgação técnica, passar a ser também um órgão de propaganda governamental recheado de palavras de gratidão ao ministro das corporações e previdência social. O nº. 17 de “O Escritório”, primeiro da nova direcção, já não me tinha como chefe de redacção embora, indevidamente, o meu nome ainda lá figurasse. Tinha pedido a demissão por não concordar com a inserção de uma frase de Salazar na contracapa da revista e dos louvores ao ministro. Ironia do destino. Com um admirador de Salazar consegui trabalhar durante todo aquele tempo; com alguém que se dizia crítico ao regime não foi possível porque não passava de um oportunista. Mais tarde, falando com o Dr. Gautier sobre isto, ele disse-me: “Agora já te posso dizer. Quando informámos o ministério das corporações que ias ocupar aquele lugar, o ministério informou que não eras “persona grata” ao governo. Guardei a carta na gaveta e ocupaste o lugar”. Mais tarde fui também para a TAP e trabalhámos bastante juntos pois ele era o Presidente do Grupo Cultural e Desportivo da TAP. Todas as minhas iniciativas tiveram sempre a sua colaboração e não regateava meios para que elas se pudessem concretizar. Foi assim com o rali, com o grupo de teatro, com a equipa de tiro, com o concurso de pesca desportiva, com as festas de Natal para os funcionários da companhia. Sempre tive o seu apoio e colaboração. Nunca esqueço uma frase que me dizia sempre: “ Meu filho, se o que fizeres for perfeito e grande ninguém pergunta quanto custou. Se fizeres uma merda reclamam um tostão que seja. Apesar da sua admiração a Salazar nunca alinhou com o fascismo nem com os seus métodos. Foi um verdadeiro amigo que recordo com muita saudade.
ETIQUETAS: RECORDAÇÕES

domingo, 7 de janeiro de 2018

Lisboa, anos 60



Em 1968 entrei na Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa para tirar o Curso de Filologia Românica. Em vez de ir para o Porto ou Coimbra como as minhas colegas de liceu, vim para Lisboa porque tinha a avó Ermelinda para me acolher e, diziam os entendidos, o ensino na capital estava mais actualizado e o ambiente era melhor. Na verdade, naquele tempo, (antes da globalização!) os lisboetas distinguiam-se dos outros portugueses na maneira de pensar, de vestir e até de falar. O que podia dar origem talvez a alguma discriminação…Na fase inicial de adaptação pude contar com o apoio da Carmen Rosa que me ensinou o indispensável para sobreviver. E, apesar da ditadura, sentia-me livre pela primeira vez na vida, muito curiosa e aberta em relação a tudo o que fosse novidade. 


O ambiente na Faculdade era, de facto, fantástico. Jovens assistentes como Eduardo Prado Coelho, Osório Mateus e Manuel Gusmão, nas aulas práticas, revolucionavam os o ensino com métodos e conteúdos novos e, não menos importante, davam a conhecer os autores portugueses mais inovadores.


Além de ler muitos livros que me emprestavam, tentava comprar as novidades literárias e as obras dos meus autores preferidos (para juntar o dinheiro necessário à compra ia a pé para a faculdade). Parece incrível, mas havia muitos autores, que viam os seus livros censurados e apreendidos pela PIDE, e muitas vezes nem era por motivos políticos, mas por supostamente atentarem contra a moral e os bons costumes. Vem a propósito referir que o Fernando entretanto também viera estudar para Lisboa e tinha um jeito especial para adquirir livros retirados do mercado, incluindo os de divulgação de ideologias como o socialismo e o comunismo. Quase todos nós, jovens estudantes, sonhávamos e acreditávamos que era possível construir uma sociedade melhor e mais justa, embora apenas alguns se empenhassem de forma activa em iniciativas de contestação ao regime, organizadas pelos partidos da oposição. 



Estávamos em plena “Primavera Marcelista”, mas por ironia, a repressão exercida sobre os estudantes aumentou. Além das agressões, prisões, o impensável aconteceu com a contratação de “gorilas” para vigiar os estudantes dentro da escola, a invasão da faculdade de Letras pela polícia de choque e depois com o assassinato de Ribeiro Sanches por um PIDE num anfiteatro do ISCEF. Participei em algumas reuniões promovidas pelas associações de estudantes e recordo especialmente uma RIA, à noite, em Medicina (o Fernando também estava presente) em que o ambiente era de grande tensão e de repente alguém gritou: ”Vem aí a polícia!” Desatámos a fugir num desespero, tentando encontrar um local onde nos escondermos. Eu até perdi um sapato! E no final da reunião (de novo com sapato) saímos quase um a um, de forma disfarçada, pelos atalhos à volta do Hospital de Santa Maria, pois sabia-se que a polícia andava à procura dos “comunistas” para os prender. 

A oferta cultural desta Lisboa dos finais da década de 60 era bastante interessante, conseguia-se quase “fazer omolette sem ovos”. Nas sessões clássicas do Cinema Império, as pessoas da minha geração tiveram a oportunidade de ver os filmes mais antigos dos maiores cineastas estrangeiros. E quanto ao teatro, apesar da censura, diversas companhias ofereciam a todos os interessados uma programação de “luxo”: bons textos, bem encenados e representados, de dramaturgos portugueses, mas também de autores estrangeiros, incluindo os de vanguarda. 



Nessa época, a Fundação Calouste Gulbenkian desempenhava o papel de Ministério da Cultura, apoiando inúmeras iniciativas no âmbito da cultura e das artes, sem qualquer tipo de discriminação. Por exemplo muitos artistas plásticos portugueses beneficiaram da concessão de bolsas no estrangeiro que lhes permitiram uma evolução difícil de imaginar sem esse apoio. O edifício sede da Fundação Calouste Gulbenkian, inaugurado em 1969, com o Grande Auditório, será o palco perfeito para a exibição do Ballet Gulbenkian e da Orquestra que até aí não tinham casa própria. Os lisboetas, incluindo é claro, os estudantes, passaram a ter acesso, com regularidade, a espectáculos de nível internacional a preços reduzidos.


O Fernando e eu, como se diz agora, andávamos quase sempre na mesma onda, tínhamos amigos comuns. Em casa ouvíamos muita, muita música. O gira-disco estava quase sempre a trabalhar. Púnhamos música anglo-saxónica como os Beatles, Otis Redding, Janis Joplin, Simon and Garfunkel, Jimi Hendrix e muitos outros. De música francesa essencialmente Jacques Brel. De portuguesa estavam na moda as baladas, recordo em especial Zeca Afonso e Luís Cília. Entretanto em 1971 chegaram a Portugal os álbuns de dois cantores, exilados em França, que renovaram completamente a canção nacional a nível da composição e das letras: “Mudam-se os tempos, mudam-se as vontades” de José Mário Branco e “Sobreviventes” de Sérgio Godinho. Numa espécie de premonição, Sérgio Godinho cantava: “Aprende a nadar, companheiro aprende a nadar, companheiro. Que a maré se vai levantar que a maré se vai levantar. Que a liberdade está a passar por aqui que a liberdade está a passar por aqui… “



A música funcionava normalmente como aquecimento, seguia-se uma noitada que, em vez de ser dedicada aos estudos, era sinónimo de borga. Em pouco tempo os nossos conhecimentos pessoais alargaram-se e passámos a funcionar em grupo. Deambulávamos pelas ruas numa pura manifestação de juventude e alegria, poupava-se para poder fazer de vez quando uma extravagância “porque hoje pode ser o nosso último dia” e íamos por exemplo cear um prego à Portugália. Normalmente havia sempre reclamações porque pedíamos para servirem as doses de batatas fritas separadas e mandavam as batatas todas juntas numa única travessa. Nós achávamos que assim nos traziam menos quantidade, além de se colocar a questão de uma partilha justa para todos. Um momento muito aguardado era o da sobremesa para ver quantos pudins flan é que o Fernando era capaz de devorar naquela noite! Pelo que me lembro chegava aos 7 ou 8! Às vezes íamos comer um combinado (o mais baratinho) a algum snack-bar, uma novidade na Lisboa daquela época. Recordo O Galeto ainda hoje famoso, o snack do Apolo 70, o do Cinema Londres e o do Imaviz. Lisboa era uma cidade pataca e segura, os cafés e restaurantes fechavam bastante tarde, tirava-se o curso a estudar nos cafés. 



A casa da avó era como se fosse a sede do grupo e foi no café que ficava em frente, A Flor do Império, que conhecemos o Carlos e a Luísa e outros elementos de que entretanto perdemos o contacto. Antes do 25 de Abril todos se sentiam unidos pelo mesmo ideal, depois da revolução surgiram os desentendimentos por questões partidárias e o grupo desfez-se.




ÁLBUM DE LISBOA, ANOS 60


Reitoria da Universidade de Lisboa



Cinema Império e Cine-Teatro Estúdio



Autocarro típico dessa época



Edifício sede da Fundação Calouste Gulbenkian



Cervejaria Portugália



Capa do álbum "Sobreviventes" de Sérgio Godinho

sábado, 29 de outubro de 2016

A nossa casa de Aveiro


É na nossa casa de Aveiro que toda a família se reúne, para comemorar as datas importantes como o Natal e passar férias, juntando quatro gerações, a minha mãe (a avó Lena), os seus filhos, netos e bisnetos. Para a restante família e amigos de qualquer um de nós continua a ser um ponto de paragem obrigatório, quando se deslocam a Aveiro. É uma casa de portas abertas, onde por princípio se arranja sempre mais um lugar à mesa e uma cama para dormir durante a noite. Ao longo dos tempos a avó Lena tem merecidamente recebido provas de reconhecimento da sua hospitalidade, como missivas endereçadas pelos “hóspedes”, agradecendo a forma descontraída e generosa como foram acolhidos. Quando estamos juntos à mesa normalmente reina a boa disposição, brincamos e gozamos uns com os outros. Além disso se, por acaso, alguma iguaria é muito do nosso agrado, utiliza-se a táctica de começar a dizer mal, mas mesmo muito mal da comida, porque se ninguém comer, mais fica! E até existe um “Livro de Reclamações”, como em qualquer unidade hoteleira que se preze (!), colocado bem à vista de todos na casa de jantar. Com muito sentido de humor, alguns convivas responderam ao desafio lançado pelos anfitriões, explanando o motivo do seu desagrado. Agora é tão engraçado reler, por exemplo, as queixas apresentadas pelos netos, quando ainda eram crianças e adolescentes. 
Voltando mais atrás, esta casa testemunhou e sofreu muito com as nossas traquinices de crianças (principalmente dos dois mais velhos). Imaginem os nossos sapatinhos a voar pelas janelas para grande desespero da avó Lena e, melhor ainda, uma vez arremessámos paus (daqueles normalmente utilizados para ajustar o tapete aos degraus das escadas) através da janela do sótão estilhaçando violentamente os vidros que recobriam o espaço entre os dois prédios. E que dizer das escavações que fizemos nas paredes do sótão, julgo que com a intenção de encontrar algum tesouro! Mas há mais, muito mais para contar. Por exemplo, amestrávamos galinhas obrigando-as a fazer equilíbrio em cima das cordas da roupa. As coitadas mal nos viam aninhavam-se logo. Também fazíamos corridas de caracóis (não me perguntem como!). 
A casa é grande e as divisões espaçosas. Os nossos pais, muito liberais nesse aspecto, deixavam-nos circular à vontade, inclusivamente andar de triciclo e formar comboios com as cadeiras que arrastávamos pelo corredor. Quando saíam à noite era um forrobodó: saltávamos em cima dos colchões das camas que serviam de trampolim e treinávamos a pontaria com as almofadas tentando acertar nas cabeças uns dos outros. Tínhamos a sorte de poder contar com a cumplicidade da empregada, nesse tempo interna que, enfim, era apenas um pouco mais velha do que nós. 
Quando adolescentes púnhamos a música (discos em vinil, normalmente um long play) com o volume do som tão alto que se ouvia do outro lado da avenida. O meu pai sentia um grande orgulho na sua aparelhagem, que pela sua qualidade (as colunas eram enormes, o gira-disco com uma agulha especial), suscitava a admiração dos nossos amigos.
Não foram muitos, mas ficaram famosos os bailes que se realizaram na nossa casa, em data de aniversários, proporcionando uma aproximação rapazes/raparigas que, naquela época de imensas convenções, viviam em mundos completamente separados. A exigente lista de convidados contemplava as primas e algumas amigas e, quanto a cavalheiros, os primos e os amigos dos primos e dos irmãos. Preparava-se um lanche onde não faltavam as especialidades da casa e até se fazia cup! Chegado o momento tão aguardado de dar início ao baile, colocava-se o disco escolhido no gira-disco e as raparigas esperavam, com o coração aos pulos, que algum rapaz simpático viesse pedir para dançar, mais ou menos assim: “A menina dança?”. A avó Lena era uma espécie de mentora destes encontros, pois compreendia a importância de educar os jovens com uma certa abertura, possivelmente devido à forma como ela própria fora criada e vivera a sua juventude. Antes do 25 de Abril, estes bailes eram uma lufada de ar fresco que contrastava com o ambiente cinzento e pesado que nos envolvia, condicionando de tal modo o nosso comportamento em sociedade que, normalmente, não sabíamos como conversar com o sexo oposto e vivíamos numa insatisfação permanente, miudinha e de causa desconhecida, pelo menos para mim, até uns anos depois.
Entretanto crescemos, tornámo-nos adultos e cada um foi à sua vida… mas a ligação à casa da nossa infância e juventude manteve-se muito forte e a sua importância para nós não diminuiu com o tempo.
Em Outubro de 1979, a Teresinha e o Militão casaram-se nesta casa. Seguiu-se a “boda”, com as famílias do noivo e da noiva em alegre convívio saboreando o almoço e, como não podia deixar de ser, não faltaram os brindes à felicidade dos “pombinhos”. Por fim, lembro-me perfeitamente da quantidade impressionante de doces colocados em cima da mesa e, principalmente, do bolo de nozes, por ter sido o que me soube melhor em toda a minha vida. A festa, pelo menos para alguns, prolongou-se pela noite fora e cometeram-se algumas loucuras, digamos que exagerámos um bocadinho no nosso entusiasmo. Refiro-me concretamente ao nosso comportamento no Forte da Barra, para onde fomos passear na companhia do Tio Isaías, que alinhava sempre com os mais novos para a paródia. Algumas fotos testemunham esses momentos inesquecíveis de alegria do grupo (incluindo os noivos) junto de uma paragem de autocarros.
Em Setembro de 2011, o Pedro (o neto primogénito) e a Mafalda também escolherem Aveiro para dar o nó e a “boda”, como não podia deixar de ser, realizou-se nesta casa. Muito cool, como diz a malta jovem. Mas o mais divertido foi o inesperado discurso de agradecimento dos noivos em que, com grande sentido de humor, fizeram referência ao apoio que receberam de cada um dos membros da família nas diferentes fases da vida. Sem dúvida, estes momentos terão sido dos mais hilariantes passados nesta casa.
Em todas as ocasiões importantes é nesta casa que gostamos de nos reunir. No Natal, todos marcam presença e agora com as crianças (bisnetos) o “Menino” renasceu. A Teté (neta mais nova) ofereceu uns versos à avó Lena, em 2006, que retratam bem o espírito de Natal para nós:


Natal, casa cheia, animação, alegria…

Assim é o Natal cá em casa!!

Mesmo que passemos o ano todo separados

No Natal juntamo-nos…

Contamos as nossas últimas aventuras,

Brincamos uns com os outros,

Discutimos temas actuais

E falamos dos tempos de outrora.



Ao cheiro característico da casa,

Junta-se o aroma da comida e dos doces!

O barulho das tábuas a ranger

E as “luzes” no chão

São únicos desta casa

Que já viu tanta gente crescer!!



E aquele nervosismo miudinho

Que nos cresce depois da ceia de Natal,

Porque ainda falta fazer embrulhos,

Ou encontrar as palavras certas

Para um postal ou uma brincadeira, 

Ou porque nos faltam os laços

Ou a fita-cola e a tesoura…



Ora o Natal não é prendas

Mas sim a alegria dentro de nós…

Porque as prendas chegam sempre

Atrasadas aos sapatinhos,

(Que normalmente são todos da Avó)

E têm sempre um papelzinho


Com o nome de cada um

Escrito à última da hora…

Aqui, o Natal nunca começa à meia-noite!!

Começa com o valor que damos à palavra FAMÍLIA!!

Com os bisnetos, iniciou-se um novo ciclo. Voltaram as correrias pela casa, a algazarra, os gritos de alegria e, de vez em quando, um pequeno desentendimento exigindo a intervenção de um adulto.
Até há pouco tempo a fachada do prédio onde se situa a nossa fracção estava muito danificada, com ar decadente. Felizmente fizeram-se obras respeitando as características originais da construção e a sua beleza, que anteriormente passava despercebida, ficou à vista de todos.
Falta dizer que a avó Lena, para nós, é uma espécie de castelã e esta casa o castelo encantado de todas as crianças que por aqui têm passado.




ÁLBUM DA CASA DE AVEIRO



Fachada principal 




Traseiras da casa





Casamento da Teresinha  e do Militão, Out. 1979





Casamento do Pedro e Mafalda (2011); na hora dos discursos






Natal 1990; o que será?!





Natal 1992
Uau! Que sorte! Um baú cheio de moedas de oiro!
Conseguem ver?





Natal 2005
Surpresa! Um cão de companhia que não dá trabalho nenhum.





Natal 2014; as melhores prendas do mundo!





Natal 2014; afogada em prendas!!!





Natal 2015; e há mais prendas, muito mais!

quarta-feira, 27 de abril de 2016

A casa de Mataduços - memórias

A casa de Mataduços é muito velhinha. Aí residiu o Tio Junqueiro (1864-1957) primeiro com a mulher, a Tia Helena (1874-1936), e depois na condição de viúvo. A partir de certa idade foi morar para Lisboa, em casa da sua sobrinha Ermelinda que criara como filha, a nossa “avó de Lisboa”, onde naturalmente beneficiava de um maior acompanhamento familiar recebendo os cuidados e carinho que são devidos a “um mais velho”.
As minhas memórias mais remotas desta casa datam de meados do século XX (!), ainda o Tio Junqueiro era vivo. A avó de Lisboa, que fora beneficiada na herança em relação aos outros sobrinhos, herdara a casa, de acordo com a vontade expressa em testamento pela Tia Helena. A Clélia, uma criada, como então se dizia, tomava conta dela e tratava da criação e do aido, uma vez que os patrões passavam a maior parte do ano em Lisboa. Mas os três filhos, Isaías, Ilda e Helena (a avó Lena) nasceram como não podia deixar de ser na casa de Mataduços, dando continuidade a uma tradição que se perdeu totalmente por diversos motivos.
Alguns costumes são tão antigos que a avó Lena recorda-se de ouvir falar mas não são do seu tempo. É o caso da confecção de colchas, realizada por tecedeiras que residiam perto de Mataduços, a partir da lã obtida pela tosquia das ovelhas lá de casa depois de tratada e fiada ao serão, em família. Três colchas lindíssimas que datam dessa época encontravam-se na posse da Avó Lena que entretanto as legou às filhas. Estão em muito bom estado de conservação e revelam um trabalho de grande qualidade com desenhos geométricos que eram formados com “puxados”.
Os bordados herdados da Tia Helena que chegaram até nós, nomeadamente toalhas e panos com monogramas, são prova de um requinte que parece estar em contradição com a rudeza da vida dos lavradores. Talvez o respeito que sentimos pelos nossos antepassados explique a estima que estes “bens” nos merecem, conservando-os como se fossem um tesouro.
Muitas tradições que se mantiveram durante séculos, perderam-se com o aparecimento de novas técnicas de fabrico e a evolução da sociedade. Por exemplo, até meados do século XX, em todas as casas de aldeia se amassava semanalmente a broa de milho cozida depois no forno de lenha. Assim acontecia na casa de Mataduços e o forno de lenha continua a existir na cozinha velha, mas não é utilizado há muitas dezenas de anos.
Lembro-me das desfolhadas, mas sem grandes pormenores. Juntava-se a família e os amigos para desfolhar as espigas de milho que depois eram levadas para a eira para secar e finalmente malhavam-se para as debulhar. A partir de certa altura esta operação passou a ser feita pelas máquinas debulhadoras. As vagens secas de feijão também se costumavam malhar com o objectivo de fazer soltar os grãos. Quanto às vindimas guardo a imagem dos homens a pisarem as uvas no lagar e pouco mais.
Já a matança do porco impressionava-me muitíssimo e a proibição de assistir por ser criança adensava o mistério que a envolvia. Recordo com bastante nitidez o guincho do porco que atravessava os ares naquelas manhãs de Outono e a azáfama súbita que tomava conta de todos, homens e mulheres. Era um corrupio de gente a correr de um lado para o outro, pois não havia mãos a medir para ajudar, de acordo com a sua experiência, no que fosse preciso. Normalmente na casa de Mataduços, cevavam-se dois porcos e portanto o trabalho era a dobrar. Sangrar, tirar e arranjar as vísceras, ir lavar a tripas não são tarefas para qualquer um. Os porcos eram pendurados em grandes ganchos fixos no tecto da despensa (um verdadeiro frigorífico!) e assim ficavam até ao dia seguinte. Sempre que chegava mais alguém a casa, era levado a admirar os animais pendurados na despensa. E seguiam-se as exclamações que naturalmente envaideciam os meus avós de Lisboa: “Que belos cevados! Ainda parecem maiores que os do ano passado!” Entretanto confeccionavam-se os primeiros petiscos com o que fora retirado do porco e os ajudantes naturalmente estavam convidados. Era uma festa. Mas ainda havia muito trabalho pela frente que iria prolongar-se pelos dias seguintes. Desmanchar o porco (tudo será aproveitado) bem como, por exemplo, separar e temperar as partes destinadas a fazer os enchidos. Mas um dos momentos mais esperados consistia na prova dos rojões fritos em banha naqueles enormes tachos de cobre, que decoravam as prateleiras da cozinha, sendo apenas usados nesta ocasião especial. Um manjar que era o orgulho dos donos da casa e fazia a delícia de quem tinha a sorte de os saborear. Uma boa parte do porco acabava na salgadeira (preservada até à actualidade) e, num tempo em que não existia frigorífico, teria de durar até à matança do ano seguinte.
As Pastoras no dia de Ano Novo e a festa de Nossa Senhora de Alumieira na 2ª Feira de Páscoa eram os acontecimentos mais importantes do ano para as pessoas da aldeia, que viviam intensamente aqueles dias, começando a preparar-se para as festas com bastante antecedência. A avó Lena e irmãos, bem como os primos, vestidos a rigor com um traje representando uma profissão do povo, participavam todos os anos no desfile, levando uma oferenda “ao Menino Jesus” que depois seria leiloada, na esperança de que fosse arrematada por um valor superior ao de que todas as outras. Relativamente às festas de Nossa Senhora de Alumieira, que culminavam com a procissão a percorrer, com grande solenidade, as ruas da aldeia, lembro-me de ter ido vestida de “anjinho”, umas duas vezes talvez. Era nesta altura que se comia a chanfana que em Mataduços todos chamavam “frigideira” (carneiro assado no forno de lenha numa caçoila de barro preto). À sobremesa não podia faltar a aletria e o arroz doce, artisticamente decorados pela avó de Lisboa, com canela em pó. As travessas com o doce colocavam-se em cima da cama de um dos quartos que funcionava como frigorífico. Na actualidade, um grupo de pessoas, por amor à terra e com grande mérito, teima em manter viva as tradições ligadas às comemorações das datas festivas da sua aldeia.
Quando os meus avós se encontravam de férias em Mataduços tanto eu como os meus irmãos adorávamos passar uns dias com eles, principalmente por podermos andar à vontade pelo pátio e pelo aido, acompanhar os trabalhos do campo e ajudar a tratar da criação. Mas a vida na aldeia, para mim, tinha ainda outros encantos, por exemplo, participar no ritual da ida à fonte. Costumávamos ir à fonte do Crelvo com a minha avó ou a Felisbela. Levávamos o barril (de barro, claro,) e seguíamos por um carreirinho, rodeado de vegetação, numa zona em que não havia casas. Lamentavelmente esta fonte já não existe há bastante tempo, uma consequência inevitável da construção de habitações naquele local. Mais ou menos o mesmo destino sofreu o Senhorio, uma outra fonte, por onde agora escorre apenas um fio de água, não potável. Ainda hoje sinto o sabor da água conservada no barril, muito fresquinha! Actualmente, na cozinha velha, em cima da velha cantareira, lá está o barril, como nos tempos em que o levavam à fonte.
Recordo-me perfeitamente das revigorantes gemadas que a avó preparava para nós comermos ao lanche: a gema do ovo de uma das galinhas da criação, misturada com um pouco de açúcar e uns bocadinhos de miolo de pão. Era delicioso e acreditava-se que fazia tão bem que até curava a tuberculose!
Passar a noite em Mataduços, principalmente no Inverno, punha uma pessoa à prova. O frio entranhava-se na roupa da cama que parecia molhada e nós enroscávamo-nos sob o peso dos cobertores de papa, tentando aquecer os pés na botija de grés cheia de água quente. O cheiro mais ou menos intenso a humidade acentuava a sensação de frio. Como é habitual nas casas antigas desta zona, o tortulho alastrava pelas paredes e tecto da sala e quartos. Só a cozinha escapava a esta maldição devido à utilização da lareira. Mas a falta de conforto não me assustava. Imaginava o meu futuro, muito feliz, a viver numa quinta rodeada de toda a espécie de animais: patos e galinhas, porcos, vacas, cavalos, etc…etc… Quem sabe se um dia…




ÁLBUM DE FOTOS ANTIGAS

2ª Feira de Páscoa (festa), a caminho da Missa do Dia...
À esquerda, o avô e a avó de Lisboa.  (sem data)         



 A procissão (sem data)
                     


                      Nas Pastoras, 1 de Janeiro de 1944.
                                 A Avó Lena encontra-se em primeiro plano, à esquerda, 
                                 com um cesto no braço.





                                Dois belos cevados, Outubro de 1947

domingo, 24 de maio de 2015

A casa de Mataduços


Era a casa do tio Junqueiro e da tia Helena e coube, por herança, à avó de Lisboa. Actualmente é propriedade da Teresinha, mas todos a sentimos como se também fosse nossa. Por isso é o local preferido para almoços de família e convívio com os amigos.
A Teresinha e o Militão vivem no Porto, mas costumam vir passar quase todos os fins-de-semana a Aveiro e, à noite, vão ficar na sua casa de Mataduços.
O aido está arrendado a uma pessoa que o cultiva e também cria patos e galinhas que se encontram numa cerca, mas continuamos a poder circular pela propriedade e, em particular, a usufruir das árvores de fruto. São famosas e muito cobiçadas as nozes da centenária nogueira existente no pátio, que tantas ralações causam à avó Lena, pois é preciso apanhá-las, parti-las, secá-las e pô-las a secar ao sol numa altura (Outono) em que chove frequentemente. Mas as maravilhosas ameixas brancas também são únicas devido ao seu sabor e tamanho. Todos os anos na época das ameixas é necessário recrutar voluntários entre a família e os amigos com capacidade para trepar a uma árvore de grande porte e apanhar os seus frutos. A ligação às nossas raízes talvez explique o facto de o nascimento de cada uma das bisnetas ter sido festejado com a plantação de uma árvore em sua homenagem, que é alvo de visitas regulares, sempre que nos deslocamos a Aveiro, para acompanhar de perto o seu crescimento.
Antigamente, todas as casas do lugar de Mataduços se enquadravam no modelo de arquitectura típica gandaresa. Até aos anos setenta, a aldeia viveu parada no tempo, sofrendo os efeitos dos sucessivos fluxos migratórios, primeiro para os Estados Unidos da América, mais tarde para a França e o Luxemburgo, que provocaram a desertificação do povoado e o começo do abandono de terrenos agrícolas. Mas na sequência das grandes alterações verificadas no nosso país após o 25 de Abril de 1974, muita gente de diversas origens escolheu Aveiro para trabalhar e Mataduços, por ser tão próxima da cidade, repentinamente ganhou nova vida e cresceu imenso. Para resolver o problema da habitação, construiu-se muito, por todo o lado e de qualquer maneira. Além disso, algumas pessoas resolveram remodelar as suas velhas casas ou mesmo demoli-las para erguer vivendas na rua principal de Mataduços. No caso da nossa família, houve sempre o cuidado de preservar o edifício, cuja fachada se mantém sem qualquer alteração, apesar das obras de conservação realizadas ao longo dos anos. As divisões, incluindo a cozinha velha com a sua lareira e forno de lenha, o mobiliário e a decoração permanecem tal como no tempo da avó. Mas por uma questão de comodidade de utilização, fizeram-se algumas remodelações. Aproveitando uma parte da enorme despensa, no lado oposto à porta da rua, “nasceu” uma cozinha nova e, no sótão, existe agora um amplo quarto abrangendo a área anteriormente destinada às instalações das empregadas.
Sempre que possível comemoramos os aniversários e outras efemeridades (as do calendário e outras inventadas por nós!) em Mataduços, no pátio, em frente da porta da cozinha nova, no espaço anteriormente ocupado pelos currais e que agora funciona como zona de estar e de refeições. Com bancos corridos construídos ao longo das paredes e vasos com plantas, este cantinho encontra-se bucolicamente abrigado pela latada que sustenta as videiras, como era uso no tempo dos nossos avós.
Os preparativos para os almoços começam uns dias antes com as limpezas, sob o olhar atento da nossa matriarca, a avó Lena, que preside a estes convívios. Na véspera é necessário fazer compras e confeccionar as entradas e os “doces” para levar para Mataduços. Os anfitriões capricham em receber muito bem a família e os amigos e, apesar de todos ajudarem, não têm mãos a medir para que nada falhe, pois convém deixar tudo pronto antes do começo da refeição. A parte da decoração do espaço de refeição e da mesa propriamente dita é responsabilidade da Belita que também costuma criar cartões alusivos ao evento, colocados ao lado do prato e oferecidos como recordação aos convivas. Há sempre boa comida em abundância, a ementa pode contemplar especialidades gastronómicas tanto nacionais como internacionais, mas o leitão assado merece especial destaque. Cortar o leitão exige muita sabedoria, apenas a Teresinha e a Belita se encontram habilitadas a exercer tal função e, para as incentivar, uma parte dos convivas costuma encaminhar-se discretamente para o local em que as duas especialistas se encontram a trabalhar (a mesa da sala) e fazem o sacrifício de provar o leitão, escolhendo naturalmente as partes do seu agrado, tudo isto acompanhado com uma bebida e comentários unânimes de que o leitão está péssimo! A certa altura quase todos os convivas se encontram à volta da mesa a comer leitão. E tudo isto antes de começar a refeição a sério. Não se faz cerimónia com ninguém e o ambiente descontraído e informal contribui para tornar cada um destes encontros mais animado e memorável que o anterior. Enquanto os adultos ainda comem e conversam, as crianças (as 4 bisnetas), engoliram a comida à pressa e aproveitam para brincar com brinquedos próprios para grandes espaços que não podem ter em casa e por isso estão guardados em Mataduços. De vez em quando espiam a bicharada, patos e galinhas, encerrados numa cerca e atiram-lhes pão só pelo gosto de os ver lutar por um bocadinho de comida. Mas voltam logo às suas brincadeiras e entretêm-se umas com as outras, raramente surgindo situações de conflito a pedir a intervenção de um adulto.
Depois destes repastos, uns preferem procurar uma cama para uma boa sesta, outros fazem um passeio digestivo até ao Senhorio. Perante nós, a perder de vista temos os esteiros e um emaranhado de terrenos inundados de água de diferentes tonalidades conforme o estado do tempo e a hora, ladeados de arbustos e junco. A ria de Aveiro aqui é assim.
Entretanto, antes de dar por terminada a festa, é preciso lavar a loiça e arrumar tudo. E normalmente combina-se logo a data para o próximo almoço! 




ÁLBUM DA CASA DE MATADUÇOS


Uma casa de arquitectura típica gandaresa


Fachada lateral junto ao pátio


Pormenor do nosso cantinho, ao lado da cozinha nova


O célebre leitão assado


Vista da ria a partir do Senhorio