sábado, 27 de setembro de 2014

Ti Junqueiro

O Ti Junqueiro (Manuel Rodrigues Junqueiro) nasceu em Mataduços e morreu em Lisboa com 93 anos, no dia 4 de Dezembro de 1957. Casado com Helena Simões de Moura, irmã da mãe da avó Ermelinda, ficou viúvo muito cedo. A avó Ermelinda foi criada por estes tios, relativamente abastados, que não tinham filhos, para “aliviar” os pais e por ser muito fraquinha.
Parece que estou a vê-lo sentado numa cadeira à janela, com vista para a Rua Morais Soares, na salinha onde a avó passava bastante tempo à volta das suas costuras e outros afazeres. O Ti Junqueiro com o seu imponente bigode branco e uma manta pelos joelhos, para mim, permanece no seu cantinho, mas não consigo lembrar-me nem da sua voz nem de o ouvir falar (eu teria entre 4, 6 anos). A minha avó tratava-o com uma dedicação sem limites e, apesar de ser muito pequena, apercebia-me que todos o respeitavam por ocupar o lugar mais importante na hierarquia familiar devido à sua idade.
O Ti Junqueiro em novo veio trabalhar como padeiro para Lisboa. Ter-se-á adaptado bem à sociedade lisboeta pois aprendeu o jogo do pau (existe uma foto que ilustra esta sua faceta), muito popular naquele tempo, e, segundo consta, era namoradeiro e gostava de tentar a sua sorte fazendo a corte às criadas às escondidas dos patrões.
Quando se casou com a Ti Helena, voltou para Mataduços, continuando a trabalhar como padeiro. Entretanto foi adquirindo praias de juncos, que naquela época valiam muito, e tinha uma bateira que servia essencialmente para o seu transporte na ria. O junco era um material de grande utilidade. Com ele se cobria o chão dos currais e dos pátios. Em determinada altura do ano, recolhia-se e empilhava-se em grandes medas para fermentar. Passado algum tempo, o estrume estava em condições de adubar a terra para as sementeiras. Segundo conta a avó Lena, a principal fonte para a reconstituição da figura do Ti Junqueiro, ao domingo, depois da missa, os homens aproveitavam para tratar de negócios e o Ti Junqueiro era abordado por aqueles que queriam comprar junco.
Muito famosa no círculo da nossa família restrita e mil vezes repetida é a história do pão de trigo. Naquele tempo, o pão de trigo era muito raro e, pelo menos em Mataduços, destinava-se, em especial, às pessoas que se encontravam muito doentes. Certo dia, o pai do Ti Junqueiro incumbiu-o de ir à Póvoa do Paço comprar um pão de trigo para dar a um irmão que estava muito mal. Não resistindo à tentação, o Ti Junqueiro fez um buraquinho e tirou o miolo ao pão. Pagou caro este atrevimento, pois o pai atirou-lhe uma acha à perna, deixando-lhe uma marca para toda a vida.
Outro episódio revelador da mentalidade das pessoas da aldeia ter-se-á passado com o seu irmão, António, quando estava na tropa (o Ti Junqueiro preferiu pagar uma taxa para ficar dispensado do serviço militar). O oficial pediu-lhe para despejar o “vaso de noite”, que antigamente era de loiça, dizendo com ironia: “Agora, parte-o!” Tomando à letra estas palavras foi o que ele fez. Sempre que os dois irmãos, Manuel e António, se juntavam, todos se divertiam com as suas aventuras, lembra a avó Lena, este é apenas um exemplo dessas conversas em família.
Quando o Ti Junqueiro ficou viúvo teve de arranjar uma “moça” para se ocupar da casa e dos animais. De acordo com as normas daquele tempo, para evitar mal entendidos, uma das sobrinhas ia dormir lá a casa todas as noites. Nos últimos anos de vida, devido à sua idade avançada, morou em  Lisboa com a sobrinha que criara, a nossa avó Ermelinda.

Nota: A avó Lena diz que a leitura deste texto lhe despoletou memórias muito antigas e levou-a a recordar-se, apesar de terem decorrido cerca de 80 anos, da imagem do Ti Junqueiro, sentado na soleira da porta da cozinha, na casa de Mataduços, a tratar das suas mazelas com sanguessugas nas pernas.  



ÁLBUM DO TI JUNQUEIRO
O Ti Junqueiro é o mais baixo; sem data


Em 1947


Sem data



sexta-feira, 11 de julho de 2014

O avô de Lisboa

A minha mãe (a avó Lena para as gerações mais novas) guarda numa pasta vários esboços da nossa árvore genealógica e outras informações de interesse relacionadas com a família e o lugar de Mataduços, quase todas obtidas pela prima Gracinha e pelo meu irmão Fernando que investiu muito do seu tempo livre a pesquisar sobre as nossas raízes. No meio dos papéis encontrava-se uma folha onde a avó Lena registou algumas histórias envolvendo o avô de Lisboa (António Gomes Gautier nascido em 1895 e falecido em 1962).

Segue-se a transcrição dos apontamentos da avó Lena:
«O meu pai foi trabalhar para Lisboa com 13 anos. Costumava recordar que à despedida, na estação do Caminho de Ferro de Aveiro, chorava tanto que beijou a mão a todas as pessoas presentes no local, incluindo o chefe da estação.
O meu pai tinha uma ligação muito forte ao seu avô Lourenço e, por isso, sentia imensas saudades dele. Antes de ir viver para Lisboa, como era o mais velho já trabalhava muito a ajudar os pais, no campo e o avô tinha muita pena dele. Além disso partilhava a comida com o neto e, ao domingo, dava-lhe uma malguinha de vinho. O meu pai garantia que na noite do falecimento deste avô, sonhara com a sua morte.
Naquele tempo, de Mataduços e das aldeias em redor saíram muitos rapazes para trabalhar nas padarias e, normalmente, eram acolhidos por conterrâneos já estabelecidos na capital. O meu pai foi trabalhar para os Cabeças da Póvoa do Paço. Os empregados viviam nas padarias em pequenos quartos e utilizavam o forno para fazer a comida.
O meu pai contava que, quando mandaram o meu tio José (irmão mais novo dele) trabalhar para Lisboa, foi esperá-lo à estação. Nessa altura já se vestia à moda de Lisboa, enquanto o irmão ia com as roupas que se usavam na aldeia, muito preocupado porque tinha consigo algum dinheiro, que era costume darem-lhes para levar, mas fora avisado para ter cuidado com os vigaristas.
Então o meu pai disse-lhe:
- Todos os homens que usam chapéu de palha (era moda nesse tempo) são “vigairistas”.
O tio José apertou os braços ao corpo com medo que o roubassem e seguiu atrás do meu pai, a olhar para todos os lados, muito desconfiado.»
É pena o relato acabar aqui.

Queria apenas acrescentar que um outro irmão, Isaías, viria para Lisboa, acabando por se estabelecer no Barreiro. Os três irmãos, sempre inseparáveis, tornaram-se  industriais de panificação. O meu avó foi homenageado, já perto do fim da vida, recebendo uma medalha de reconhecimento pelo sucesso alcançado no seu ramo de actividade.


ÁLBUM DO AVÔ DE LISBOA


 Foto não datada


                                                         Foto datada de 1935


                                     Paisagem do Vouga, Verão de 1947


Na padaria, não datada.
Ao lado do avô está uma criança:
o seu filho Isaías


Avô de Lisboa com três netos em 1955



sexta-feira, 6 de junho de 2014

O Ti Santinho

O Ti Santinho era tio-bisavô da avó Lena. Chamava-se Manuel José de Moura. Nasceu em 2/11/1825 e faleceu em 7/11/1917.
 Desde pequena que me sinto fascinada por esta personagem que podemos considerar lendária. Parece-me, aliás, que é o antepassado mais citado e influente do nosso imaginário familiar. Foi, com certeza, um homem digno do maior respeito e admiração em Mataduços e Alumieira, não só por ser uma “pessoa de teres”, o que lhe conferiria um certo estatuto naquela época, mas sobretudo por possuir um carácter exemplar a vários níveis. Naquela época muito anterior à nossa sociedade consumista, o Ti Santinho devia destacar-se por ser uma pessoa particularmente íntegra e austera e impressionar por isso os seus conterrâneos, dando origem às histórias que chegaram até nós.
A sua santidade, pelo que se diz, era tal que não casou nem teve filhos. Daí também o diminutivo Ti Santinho pelo qual ficou conhecido. Outro aspecto muito referido é a sua sobriedade e preocupação em poupar para deixar uma boa herança. Assim, durante a noite quando estava na cama, se pretendia mudar de posição e voltar-se para o outro lado, levantava-se para o fazer sem gastar os lençóis. Esta história continua a ser recordada quando se quer chamar a atenção para a importância de poupar: “Devias fazer como o Ti Santinho…” Existe na nossa casa de Aveiro um lençol de linho herdado deste antepassado que tem uma característica rara: o entremeio (renda) está colocado no sentido do comprimento e não da largura (barra), como é habitual.
Segundo costuma contar a Avó Lena, o Ti Santinho teria os seus métodos originais para poupar na alimentação: atava um cordel à volta de um bocadinho de bacalhau e, quando as batatas estavam a cozer, com a ajuda do fio mergulhava por momentos o bacalhau na água, que depois retirava e voltava a utilizar para preparar as refeições seguintes. Muito engenhoso, sem dúvida. Será verdade?
Outra história ligada ao Ti Santinho apresenta contornos menos nítidos e relaciona-se com a sua fortuna. Diz-se que antes de se deitar o Ti Santinho costumava contar as moedas e fazer “carneirinhos”. Ou serão “carreirinhos”? Não foi possível esclarecer qual o termo original bem como o seu significado exacto.
Conta-se também que teria deixado um tesouro escondido nas paredes da casa onde morava, precisamente a que veio a pertencer, por herança, à Tia de Alumieira, como nós lhe chamávamos (casada com José Gomes Gautier, irmão do Avô de Lisboa). Cada vez que se realizavam obras na casa esta história era desenterrada, mas não só a família como os mestres-de-obras envolvidos sempre negaram a descoberta de qualquer tesouro. É um grande mistério.
A identidade familiar depende bastante da capacidade de manter vivas estas e outras histórias dos nossos antepassados transmitindo-as às gerações mais jovens.



sábado, 24 de maio de 2014

Avó Ermelinda


A minha avó Ermelinda Simões de Moura Gautier (nascida em 1900, casou-se em 1920 e faleceu em 1991) a quem nós, seus netos, chamávamos “avó de Lisboa”, foi uma digna representante dos Moura. 

Todos a respeitavam pela sua personalidade fortíssima, generosidade e espírito de sacrifício no bom sentido cristão. De resto, não me lembro de alguma vez a ter visto dar uma gargalhada, quando muito sorria. De grande sobriedade nos gestos e nas palavras, apreendia o essencial das pessoas e das situações, não se deixando deslumbrar pela ostentação e pelos bens materiais. Nunca esquecia a sua origem humilde e referia-se com gratidão aos tios relativamente abastados que a criaram (Tio Junqueiro e Tia Helena) proporcionando-lhe uma educação excepcional para a época (estudou até à 4ª classe), sobretudo para uma rapariga. Possivelmente por influência das suas convicções religiosas, na sua relação com os outros, nomeadamente com a geração dos mais jovens, mostrava-se muito compreensiva, nunca criticava nem julgava ninguém.
Falar da minha avó traz-me à memória recordações de quando era pequena e ia passar férias a Lisboa, com os meus avós.
Ainda em vida do meu avô, António Gomes Gautier, falecido em 1962, lembro-me em especial dos preparativos para a grande viagem de Lisboa para Aveiro. A minha avó costumava levar para Mataduços pão de trigo, na altura algo raro na aldeia, para oferecer como presente. Na véspera da partida organizava meticulosamente os quinhões. Para a minha avó o pão era sagrado, uma iguaria preciosa, o melhor presente que se podia receber.
Partia-se de Lisboa, ao nascer do sol e a viagem durava na melhor das hipóteses até ao princípio da tarde. As subidas, por exemplo perto de Leiria, representavam um grande esforço para o automóvel, neste caso um Buick, cujo motor aquecia e era necessário voltar a encher o depósito de água. Também me lembro que o carro tinha um estribo (que eu achava muito engraçado) e se dava à manivela para pôr o motor a funcionar.
Chegados a Mataduços, a notícia espalhava-se rapidamente e as pessoas apareciam a desejar as boas-vindas. E então, muito naturalmente, a minha avó oferecia pão de trigo para levarem para toda a família. Logo que os seus afazeres o permitiam, visitava os vizinhos mais necessitados, ouvia as suas queixas, dava-lhes apoio moral e, discretamente, levava-lhes o precioso pão de trigo.
Ficou famosa uma história passada com um indivíduo conhecido por Zé do Burro. A minha avó, de manhã, costumava dar uma volta pelo aido onde apanhava a fruta caída das árvores (em casa também só comíamos a fruta encontrada no chão) que transportava no seu avental. Depois dirigia-se até à porta da rua, chamava os miúdos que por ali andavam e dava-lhes essa fruta e, algumas vezes, também pão. Pois uma vez, o tal Zé do Burro, pai dessas crianças, procurou a minha avó e muito atrapalhado começou a pedir-lhe muita desculpa porque lhe tinha tirado um pinheiro. Enfim, o homem desfez-se em desculpas, como se costuma dizer, confessando o seu pecado, mas a minha avó achou estranho porque os pinheiros do seu pinhal de Mataduços eram de grande porte e seria muito difícil cortá-los. Indagou sobre o local do crime e confirmou as suas suspeitas. Aquele terreno não era dela!
Tal como em muitas casas católicas daquela época, em casa da minha avó, à sexta-feira não se comia carne, jejuava-se na Quaresma, rezava-se o terço com a família todos os dias ao fim da tarde e, antes das principais refeições, todos se benziam e davam graças a Deus pela comida. Além disso, a minha avó, julgo que de 6ª para sábado, acordava a uma determinada hora da noite para rezar um rosário (três terços) e ler textos religiosos essencialmente pela paz no mundo e pela conversão da Rússia.
Lembro-me de um episódio passado nos anos setenta, quando o meu irmão (o Fernando) e eu estávamos a estudar em Lisboa e morávamos com a minha avó. Ora uma vez, chegámos a casa a meio da noite e, à porta, descalçámo-nos para não fazer barulho. Pois bem, começámos a entrar cuidadosamente, em bicos de pé, de sapatos na mão e eis que percebemos que havia uma luz acesa no quarto da minha avó e, pela porta entreaberta, damos com ela, a rezar de joelhos em frente do grande espelho da cómoda, naturalmente, a observar a nossa imagem reflectida no espelho. Não há palavras para descrever esta situação e como nos sentimos. Mas o mais espantoso é que não nos repreendeu e nunca se queixou aos nossos pais.
A minha avó era uma pessoa muito ocupada, participando activamente nas actividades organizadas pela paróquia da Penha de França. Por exemplo, um determinado dia da semana dedicava-se a acompanhar pessoas idosas a tratar dos seus assuntos pessoais, ou na deslocação a consultas ou tratamentos; outro ao arranjo da roupa usada para oferta (passajar, coser botões e bainhas…); outro a distribuir mercearia pelos que necessitavam; e tinha ainda a seu cargo o arranjo de um dos altares da igreja. Nas excursões organizadas pela paróquia era a responsável/animadora do autocarro em que seguia. Entretanto, progressivamente, a Felisbela, empregada muito antiga na casa, por todos estimada como família, que era de uma dedicação total à minha avó, começou a acompanhá-la nas suas tarefas.
Até cerca dos oitenta anos manteve-se em plena forma, caminhando firme, no seu passo apressado, sendo difícil acompanhá-la, principalmente na subida para a Penha de França. Aos oitenta e dois anos, durante quase um ano, cuidou de um dos seus filhos, Isaías, o segundo filho que veria morrer. A partir daí começou lentamente a decadência. Mas nunca perdeu a lucidez e faleceu em 1991 de velhice e tristeza, por ter perdido a visão, retirando-lhe a possibilidade de ler e fazer as suas costuras de que tanto gostava.

ALBUM DA AVÓ DE LISBOA

A avó com 18 anos

Foto não datada

Foto do casamento (14/11/1920)

A avó aos 41 anos

A avó com três dos seus irmãos (António, Maria e Rosa) /
foto não datada

Com o marido e os filhos/foto não datada

A avó de Lisboa e dois dos seus irmãos em 1969