A minha avó Ermelinda
Simões de Moura Gautier (nascida em 1900, casou-se em 1920 e faleceu em 1991) a
quem nós, seus netos, chamávamos “avó de Lisboa”, foi uma digna representante
dos Moura.
Todos a respeitavam pela sua personalidade fortíssima, generosidade e espírito de sacrifício no bom sentido cristão. De resto, não me lembro de alguma vez a ter visto dar uma gargalhada, quando muito sorria. De grande sobriedade nos gestos e nas palavras, apreendia o essencial das pessoas e das situações, não se deixando deslumbrar pela ostentação e pelos bens materiais. Nunca esquecia a sua origem humilde e referia-se com gratidão aos tios relativamente abastados que a criaram (Tio Junqueiro e Tia Helena) proporcionando-lhe uma educação excepcional para a época (estudou até à 4ª classe), sobretudo para uma rapariga. Possivelmente por influência das suas convicções religiosas, na sua relação com os outros, nomeadamente com a geração dos mais jovens, mostrava-se muito compreensiva, nunca criticava nem julgava ninguém.
Todos a respeitavam pela sua personalidade fortíssima, generosidade e espírito de sacrifício no bom sentido cristão. De resto, não me lembro de alguma vez a ter visto dar uma gargalhada, quando muito sorria. De grande sobriedade nos gestos e nas palavras, apreendia o essencial das pessoas e das situações, não se deixando deslumbrar pela ostentação e pelos bens materiais. Nunca esquecia a sua origem humilde e referia-se com gratidão aos tios relativamente abastados que a criaram (Tio Junqueiro e Tia Helena) proporcionando-lhe uma educação excepcional para a época (estudou até à 4ª classe), sobretudo para uma rapariga. Possivelmente por influência das suas convicções religiosas, na sua relação com os outros, nomeadamente com a geração dos mais jovens, mostrava-se muito compreensiva, nunca criticava nem julgava ninguém.
Falar da minha avó
traz-me à memória recordações de quando era pequena e ia passar férias a
Lisboa, com os meus avós.
Ainda em vida do meu
avô, António Gomes Gautier, falecido em 1962, lembro-me em especial dos
preparativos para a grande viagem de Lisboa para Aveiro. A minha avó costumava
levar para Mataduços pão de trigo, na altura algo raro na aldeia, para oferecer
como presente. Na véspera da partida organizava meticulosamente os quinhões.
Para a minha avó o pão era sagrado, uma iguaria preciosa, o melhor presente que
se podia receber.
Partia-se de Lisboa,
ao nascer do sol e a viagem durava na melhor das hipóteses até ao princípio da
tarde. As subidas, por exemplo perto de Leiria, representavam um grande esforço
para o automóvel, neste caso um Buick, cujo motor aquecia e era necessário voltar
a encher o depósito de água. Também me lembro que o carro tinha um estribo (que
eu achava muito engraçado) e se dava à manivela para pôr o motor a funcionar.
Chegados a Mataduços,
a notícia espalhava-se rapidamente e as pessoas apareciam a desejar as
boas-vindas. E então, muito naturalmente, a minha avó oferecia pão de trigo
para levarem para toda a família. Logo que os seus afazeres o permitiam,
visitava os vizinhos mais necessitados, ouvia as suas queixas, dava-lhes apoio
moral e, discretamente, levava-lhes o precioso pão de trigo.
Ficou famosa uma
história passada com um indivíduo conhecido por Zé do Burro. A minha avó, de
manhã, costumava dar uma volta pelo aido onde apanhava a fruta caída das árvores
(em casa também só comíamos a fruta encontrada no chão) que transportava no seu
avental. Depois dirigia-se até à porta da rua, chamava os miúdos que por ali
andavam e dava-lhes essa fruta e, algumas vezes, também pão. Pois uma vez, o tal
Zé do Burro, pai dessas crianças, procurou a minha avó e muito atrapalhado
começou a pedir-lhe muita desculpa porque lhe tinha tirado um pinheiro. Enfim,
o homem desfez-se em desculpas, como se costuma dizer, confessando o seu
pecado, mas a minha avó achou estranho porque os pinheiros do seu pinhal de
Mataduços eram de grande porte e seria muito difícil cortá-los. Indagou sobre o
local do crime e confirmou as suas suspeitas. Aquele terreno não era dela!
Tal como em muitas
casas católicas daquela época, em casa da minha avó, à sexta-feira não se comia
carne, jejuava-se na Quaresma, rezava-se o terço com a família todos os dias ao
fim da tarde e, antes das principais refeições, todos se benziam e davam graças
a Deus pela comida. Além disso, a minha avó, julgo que de 6ª para sábado,
acordava a uma determinada hora da noite para rezar um rosário (três terços) e
ler textos religiosos essencialmente pela paz no mundo e pela conversão da
Rússia.
Lembro-me de um
episódio passado nos anos setenta, quando o meu irmão (o Fernando) e eu estávamos
a estudar em Lisboa e morávamos com a minha avó. Ora uma vez, chegámos a casa a
meio da noite e, à porta, descalçámo-nos para não fazer barulho. Pois bem,
começámos a entrar cuidadosamente, em bicos de pé, de sapatos na mão e eis que
percebemos que havia uma luz acesa no quarto da minha avó e, pela porta
entreaberta, damos com ela, a rezar de joelhos em frente do grande espelho da
cómoda, naturalmente, a observar a nossa imagem reflectida no espelho. Não há
palavras para descrever esta situação e como nos sentimos. Mas o mais espantoso
é que não nos repreendeu e nunca se queixou aos nossos pais.
A minha avó era uma
pessoa muito ocupada, participando activamente nas actividades organizadas pela
paróquia da Penha de França. Por exemplo, um determinado dia da semana
dedicava-se a acompanhar pessoas idosas a tratar dos seus assuntos pessoais, ou
na deslocação a consultas ou tratamentos; outro ao arranjo da roupa usada para
oferta (passajar, coser botões e bainhas…); outro a distribuir mercearia pelos
que necessitavam; e tinha ainda a seu cargo o arranjo de um dos altares da igreja.
Nas excursões organizadas pela paróquia era a responsável/animadora do
autocarro em que seguia. Entretanto, progressivamente, a Felisbela, empregada
muito antiga na casa, por todos estimada como família, que era de uma dedicação
total à minha avó, começou a acompanhá-la nas suas tarefas.
Até cerca dos oitenta
anos manteve-se em plena forma, caminhando firme, no seu passo apressado, sendo
difícil acompanhá-la, principalmente na subida para a Penha de França. Aos
oitenta e dois anos, durante quase um ano, cuidou de um dos seus filhos,
Isaías, o segundo filho que veria morrer. A partir daí começou lentamente a
decadência. Mas nunca perdeu a lucidez e faleceu em 1991 de velhice e tristeza,
por ter perdido a visão, retirando-lhe a possibilidade de ler e fazer as suas
costuras de que tanto gostava.
ALBUM DA AVÓ DE LISBOA
A avó com 18 anos
Foto não datada
Foto do casamento (14/11/1920)
A avó aos 41 anos
A avó com três dos seus irmãos (António, Maria e Rosa) /
foto não datada
foto não datada
Com o marido e os filhos/foto não datada
A avó de Lisboa e dois dos seus irmãos em 1969


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Quando penso na avó de Lisboa ou Ermelinda, é a imagem da primeira fotografia que me vem à memória assim como a frase » pois sim».
ResponderEliminarNão sabia que a Lena tinha tantas fotografias da Avó. Ontem estivemos em Aveiro, mas o tempo foi curto para abrir o PC, mas conto ter mais tempo para a semana para tentar datar as fotografias.
De facto, tenho muitas fotos antigas que pedi emprestadas à mamã para digitalizar. Aliás, tu também me emprestaste algumas...
EliminarBoa ideia tentares que a mamã faça uma estimativa da data das fotos que, assim, estão um pouco desvalorizadas.
Tenho algumas recordações da avó Ermelinda. Lembro-me de ser muito tranquila e compreensiva. Tinha também muita paciência para os bisnetos. Mas o engraçado é que me recordo bastante bem da casa da Morais Soares. A ideia que tenho é que a achava gigante, lembro-me do escritório com o cofre do anexo ao lado, da sala de jantar enorme e da cozinha muito antiga. Ah e também do quarto independente, como dizia o Fernando.
ResponderEliminarQuando vi a fotografia da avó com os irmãos, fiquei intrigada.... quem seria aquele menino à frente da avó Ermelinda? É o João António, o filho mais velho da tia Maria e que é afilhado da avó Lena
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